Retirai de César o que é de Deus
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 17 de out. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: 1 de nov. de 2020
A página do evangelho, que a liturgia nos propõe hoje, traz a primeira das três disputas que Jesus teve com os seus adversários. A primeira é uma questão política; as duas outras, religiosas, sobre a fé na ressurreição (Mt 22,23-33) e sobre qual o maior mandamento (Mt 22,34-40).
Após as três parábolas anteriores, por sinal, bastante fortes, os religiosos, os fariseus e alguns do partido de Herodes compreenderam que Jesus estava se referindo a eles; por isso, querem contra-atacar com essas três questões. Imaginem, esses grupos são inimigos em comum, se reuniram não é em vista de uma edificação futura e de esclarecer à verdade que salva, mas por puro complô de destruição.
Pensavam consigo: “vamos colocá-lo diante de um problema concreto e ele será forçado a responder sem se esconder atrás do véu das parábolas”. O truque é habilmente realizado com uma pergunta insidiosa, que diz respeito ao tema muito delicado dos impostos. O intuito geral é tentar diminuir a influência de Jesus.
Sendo assim, atacam com métodos falaciosos. Na tentativa de adular a Jesus, mostram através dos discípulos que já o conhecem: “és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus”; “não te deixas influenciar pela opinião dos outros”; “não julgas um homem pelas aparências”. Uma irritante hipocrisia! Mas, Jesus intui rapidamente a maldade, ou seja, àquela disposição negativa que se opõe à misericórdia.
Antes de seguir com a reflexão sobre o evangelho, gostaria de incluir uma observação que considero importante. Recentemente, dentro da Igreja, encontramos uma estratégia parecida. Um pequeno grupo de homens ilustres e poderosos se reuniram para lançar algumas “dúvidas” em um documento do magistério, que trata de um tema muito delicado. Manifestavam uma caridade, declaravam uma preocupação e um amor filial ao papa. Contudo, pareciam mais interessados em defender seus espaços (ideias) do que em acolher a novidade do tempo (realidade). Talvez, pudessem querer minar a influência do papa. Entretanto, a tática nova é justamente aquela de não definir soluções, estabelecer um quadro, um conceito, um critério que resolvam determinados problemas. Prefere-se a escolha de observar os processos e os movimentos, dando primado ao tempo. Enfim, parece que não estamos tão distantes do tempo de Jesus.
Então, voltando ao texto evangélico, é possível perceber que Jesus com liberdade, criatividade, tática e inteligência dá uma resposta que não responde à estratégia deles. Sua resposta, por um lado, evita a politização da imagem de Deus e, por outro, se opõe à sacralização do poder político.
Na verdade, Jesus se distancia dos fanáticos que consideravam Deus o único “César” legítimo e critica a sacralização do poder político ao desmistificar César, porque em ambos os casos, observam-se tentações idólatras.
Na expressão “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, muito conhecida popularmente no nosso tempo, alguns autores e biblistas traduzem por “retirai de César o que é de Deus” ou “não dai a César o que é de Deus”.
Então, me perguntei: o que significa dar a Deus o que pertence a Deus?
Em primeiro lugar, ao meu modesto modo de ver, estamos diante de uma grande e paradoxal pergunta. Diante dela, temos um enorme desafio à causa do evangelho. Aos nossos olhos, apresenta-se uma confusão de imagens. Por essa razão, temos uma dificuldade de distinguir a quem dar a devida honra, porque os “Césares” de hoje se comportam como “Deus”. Aqui também é importante entender que os “césares” não sejam somente pessoas, mas também coisas, espaços e ideias.
Depois, a moeda que Jesus toma nas suas mãos tem a imagem de César. Por conseguinte, a moeda pertence a ele. A ele deve ser devolvida.
Mas, então, podemos nos perguntar: onde Deus imprimiu a sua imagem? No ser humano! A imagem impressa no ser humano é a semelhança de Deus. Ele nos fez da sua forma. Por conseguinte, o homem é a forma de Deus e pertence a Deus. É essa forma que devemos restituir a Deus, o modo como ele nos pensou, nos criou e nos desejou.
Assim, dá a Deus o que é de Deus, é dar a Ele a dignidade humana; é dar a Ele o homem integrado consigo mesmo, purificado dos interesses escusos, curado das feridas do corpo e do espírito, relacionalmente saudável.
Em outras palavras, dar a Deus o que é Deus é conseguir retirar das mãos dos “Césares” do nosso tempo o homem aprisionado e feito produto tributário. É poder dar possibilidade ao homem para que consiga exprimir os seus desejos de forma saudável e libertadora, seja no entender-se como imagem de Deus seja no ver no outro a imagem de Deus.
Dessa forma, não entregueis a nenhum “César” o que é de Deus. Não se pode sacrificar a vida e a dignidade do homem em troca do poder político, financeiro, econômico, doutrinal e religioso.
Em vista disso, o ser humano não pode ser uma moeda de circulação. Ele não pode ser comprado e vendido. Não podemos fazer do homem um produto de adoração ao “deus” liberal. Jamais, a partir dos nossos interesses, podemos instrumentalizar a imagem e a beleza do irmão. Assim, temos que agir evangelicamente e fraternalmente para retirar das mãos dos “Césares” do nosso tempo o que é de Deus.
Por fim, Deus já pagou um preço altíssimo pela liberdade do ser humano, por isso, a ninguém é dado o direito de roubar essa liberdade e desumanizar a sua semelhança.
Bom domingo!




Obrigada por mais esta reflexão. Excelente!