O escândalo das bem-aventuranças
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- há 2 dias
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Atualizado: há 1 dia
Jesus, verdadeiro mestre, inicia sua escola pelo tema mais universal e mais desejado: a felicidade. Ele sabe que esse é o anseio profundo que habita o coração dos discípulos de todos os tempos. Por isso, as bem-aventuranças não aparecem por acaso, mas abrem o primeiro grande discurso do Evangelho de Mateus, como o portal de entrada da nova pedagogia do Reino. Ao atravessar esse limiar, porém, deparamos com um lema exigente, já proclamado anteriormente: “Convertei-vos, mudai o vosso modo de pensar” (Mt 4,17). Só pode permanecer nessa escola quem aceita não se endurecer em suas próprias convicções, mas se dispõe a deixá-las interpelar e transformar pela palavra de Jesus.
Desde o início, Jesus se apresenta como um mestre profundamente inovador. Ao falar de felicidade, ele rompe com a linguagem e com o horizonte do mundo clássico, onde a felicidade era entendida como fruto de um processo de autorrealização, algo a ser conquistado pelo esforço pessoal. Nesse horizonte, tudo depende do desempenho individual, sempre sob o risco da frustração quando o objetivo não é alcançado.
Jesus, ao contrário, propõe outra lógica: a felicidade não é conquista, mas dom. Ela não nasce do controle da própria vida, mas do reconhecimento do que nos é dado e nos atravessa. Assim, Jesus não anuncia um consolo adiado para um futuro distante, mas revela uma graça sempre presente, que nos acompanha e nos sustém, sobretudo nos momentos de aflição.
A felicidade anunciada por Jesus manifesta-se nas situações concretas da vida que não escolhemos nem controlamos plenamente. Em Cristo, a felicidade não se reduz a viver simplesmente com os outros, mas realiza-se, sobretudo, numa vida entregue para os outros, feita dom.
Por isso, não somos chamados a perseguir a felicidade como uma meta distante ou idealizada, mas a reconhecê-la e acolhê-la no lugar onde estamos, na realidade que habitamos e nas pessoas com quem partilhamos a vida. As bem-aventuranças, assim, nos introduzem num olhar novo sobre a existência, educando-nos a discernir a presença e a ação de Deus no coração das fragilidades, das limitações e das vulnerabilidades humanas, onde o Reino silenciosamente acontece.
Entre todas as palavras atribuídas a Jesus nos evangelhos, as bem-aventuranças ocupam um lugar singular. Não por acaso, este é um dos textos mais lidos e conhecidos de todo o Novo Testamento, capaz de tocar tanto cristãos quanto não cristãos. Justamente por isso, torna-se indispensável compreendê-las em sua verdade mais profunda, para que permaneçam como palavra de encorajamento, conversão e transformação concreta da vida, conforme exige o Reino dos Céus.
Profundamente interpelantes e genuinamente revolucionárias, elas são também as mais fáceis de serem deturpadas, quando se transformam em suporte para uma espiritualidade da resignação.
As oito bem-aventuranças no Evangelho de Mateus podem ser compreendidas em dois grandes grupos. As quatro primeiras descrevem situações pessoais de carência e vulnerabilidade. Há pessoas que experimentam a falta de reconhecimento e sucesso segundo os critérios humanos, de consolo em meio às tristezas, de forças para reagir diante das adversidades e de justiça para verem seus direitos respeitados. No entanto, na perspectiva de Jesus, é precisamente nessas realidades que se encontra o germe da bem-aventurança, pois nelas o coração se abre para Deus.
As quatro bem-aventuranças seguintes deslocam o olhar para o campo das relações e das atitudes concretas. Elas revelam a felicidade que nasce de um modo novo de viver com os outros: felizes os que exercem a misericórdia e não se deixam dominar por julgamentos apressados; felizes os que conservam um olhar puro diante da complexidade da vida; felizes os que promovem a paz em vez de alimentar conflitos; felizes, enfim, os que são perseguidos por causa da justiça, porque não negociam a verdade. Assim, as bem-aventuranças não são promessa futura de felicidade, mas proclamação de uma felicidade já possível, vivida no aprendizado diário de uma existência humano-divina, no concreto do cotidiano.
Senhor Jesus, verdadeiro Mestre, ensina-nos o caminho da felicidade que nasce do teu Reino. Liberta-nos da ilusão de que a felicidade é conquista e abre nosso coração para reconhecê-la como dom. Converte o nosso modo de pensar, para que não nos endureçamos em nossas certezas, mas deixemos tua Palavra nos transformar. Faz de nós bem-aventurados: reconciliados contigo, com nós mesmos e com os irmãos.




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