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O humano em Deus, o Divino no homem

  • Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
    Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
  • 24 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Nesta noite celebramos o nascimento de um homem que somente Deus poderia nos dar. Em Belém, Deus assume para sempre o nosso rosto. Desde a Encarnação, Ele não apenas está conosco, mas é humano entre nós, habitando nossos sentimentos e aprendendo a nossa linguagem. Eis o mistério do Natal: o Altíssimo se faz pequenino, o Eterno entra no tempo, o Onipotente aceita a fragilidade umana. O Santo se solidariza com os pecadores e o Invisível se torna visível para que ninguém mais caminhe nas sombras.

A liturgia nos reconduz a esse acontecimento silencioso e decisivo, onde Deus revela seu senhorio no aparente escondimento. Em Cristo, Deus se faz aquilo que somos para elevar a nossa humanidade à dignidade que só Ele pode dar.

Da humanização de Deus nasce o chamado a venerar toda a beleza do humano que há em nós. Em Jesus, nada do que é verdadeiramente humano fica fora do alcance divino: sentimentos, limites, lutas, tempo e história são assumidos por Ele. O cristianismo se estrutura sobre o modelo encarnado e concreto de Jesus de Nazaré, afastando qualquer espiritualidade desencarnada e distante da vida real.

O Menino de Belém é a resposta de Deus ao anseio profundo do coração humano, o Messias esperado e o Salvador prometido. Ele é o Emanuel, Deus-Conosco, que revela o amor capaz de fazer novas todas as coisas. Nele reconhecemos o Conselheiro admirável, Deus forte, Pai dos tempos futuros e Príncipe da Paz. Seu nascimento inaugura uma nova visão da existência e devolve ao humano a grandeza perdida.

Deus se faz menino para que os homens tenham a coragem de “brincar” com Ele. Deus torna-se tão próximo que se deixa encontrar na vulnerabilidade de uma criança. A encarnação desafia-nos a reconhecer o esforço onipotente de Deus ao fazer-se pequeno, lançando luz sobre a grandeza escondida na fragilidade. É a criança deitada nas palhas que acende em nós a faísca da delicadeza e da compaixão. Contemplar o Deus-Menino é aprender que o humano é o caminho onde Deus se deixa encontrar.

Se Ele não tivesse entrado no tempo, permaneceríamos presos à morte; sem Ele, habitaríamos a miséria, mas com Ele experimentamos a misericórdia que recria tudo por dentro.

A tradição narrativa da Encarnação está repleta de sinais que revelam o sentido da presença de Deus no mundo. A luz anuncia que Cristo veio dissipar as sombras e iluminar a escuridão humana: “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz”. A criação inteira é convocada, indicando que Ele vem renovar o cosmos ferido. Maria e José, mulher e homem, mostram que o recém-nascido é enviado para harmonizar o coração humano em sua dupla dimensão. As faixas e a manjedoura revelam que Ele se inclina aos vulneráveis e aos pequenos. Pastores e magos, pobres e estrangeiros, anunciam que Deus vem para todos, sem distinção. Até mesmo os céus irrompem em canto, indicando que a Encarnação é um acontecimento que toca a terra e o alto dos céus.


É na nossa humanidade mais profunda que tocamos o mistério mais sublime de Deus. Aproximar-se do presépio é entrar na clareira onde o rosto do Menino-Deus ilumina nossas trevas interiores. Diante dele, nossas ansiedades se desfazem, porque ali Deus se mostra não como ameaça, mas como presença que acolhe. Não podemos permitir que imagens irreais ou desencarnadas afastem-nos do Deus vivo, reduzindo-O a ideia abstrata, conceito frio ou força distante.

Deus não é opressivo, nem anti-humano; Ele se fez carne e habitou entre nós. A Encarnação é concreta, tangível e cotidiana, e só pode ser compreendida a partir da vida real. Quem contempla o presépio descobre um Deus que prefere a proximidade à imponência e a ternura ao medo.

Deus se fez homem: o invisível tornou-se visível, o eterno entrou no tempo, o intocável ofereceu-se ao toque da humanidade. Sua presença não se revela no poder, mas na fragilidade; não no extraordinário, mas no simples; não no sobre-humano, mas no humano plenamente assumido. Cristo nasce para que nós nasçamos com Ele. Sem o seu nascimento, permaneceríamos para sempre aprisionados na morte; sem o seu ingresso na história, estaríamos destinados à miséria sem esperança. O projeto divino de proximidade transforma radicalmente a história humana, dividindo-a em antes e depois de Cristo. O primeiro suspiro do Menino inaugurou a nossa era e revelou Aquele que realmente faz a diferença: o Deus que veio morar conosco para sempre.


Senhor, concede-me a graça de reconhecer Teu esforço onipotente escondido na fragilidade do Teu Filho. Ensina-me que é pela minha humanidade que posso tocar a Tua divindade. Que a luz do Teu presépio dissipe minhas trevas interiores e me permita perceber-Te nos meus sentimentos e nos sentimentos dos meus irmãos. Faz-me venerar a beleza de ser humano, acolhendo a presença divina que habita em nós.

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