A Promessa realizada, o Mistério revelado
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 19 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de dez. de 2025
A chegada humana do Messias é o grande anúncio deste domingo. Esse anúncio exigiu fé obediente de três protagonistas - João Batista, Maria e José - que personificam toda a expectativa do antigo Israel. Mais do que seguir suas próprias convicções ou raciocínios, eles são chamados a reconhecer a vinda do Senhor, a acolher a novidade imprevisível de Deus, a perceber a Palavra tornando-se realidade e a se dispor, com prontidão e confiança, aos seus desígnios.
O fato de um Deus fazer-se humano é um evento absolutamente inédito. Desde sempre se esperou pelo Messias prometido pelos profetas, mas jamais se imaginou que Ele viria por meio da fragilidade humana. O projeto divino surpreende, ultrapassa toda inteligência e desestabiliza os planos humanos.
No Advento, a alegria nasce justamente da memória e da realização das promessas de Deus. Espera, surpresa e alegria, em intensidades diversas, marcam a experiência dos protagonistas evangélicos e dos primeiros destinatários do humano Deus.
A liturgia, a partir da teologia do Evangelho de Mateus, apresenta a “justiça” de José, esposo de Maria, protagonistas centrais da narrativa deste domingo. Mateus mostra que Deus revela a José o Seu projeto e o convida a confiar no mistério que envolve a gravidez de Maria. Homem discreto e profundamente aberto ao Advento de Deus, José supera o medo, não expõe sua esposa e acolhe, com fé, o Menino gerado pelo Espírito Santo. Visitado pelo anjo em sonho, reconhece que as promessas divinas estão se cumprindo e chama o Menino de Emanuel: Deus conosco.
Aquilo que poderia ser escândalo, José transforma em revelação por meio da obediência. Ao despertar, faz exatamente o que o anjo ordena, mostrando uma fé humilde, generosa e capaz de discernir na escuridão a luz da vontade de Deus. Sua justiça, dom que enobrece sua missão de pai adotivo do Salvador, manifesta-se como misericórdia: ele aceita realizar algo que ultrapassa os limites da “suprema” Lei.
Homem do silêncio, não pronuncia palavra; apenas se deixa conduzir pela obediência, confiança e fé. Nesse silêncio orante, a Palavra encontra espaço para habitar o coração humano e renovar sua adesão ao projeto salvífico.
A narrativa deste domingo também destaca a origem de Jesus. Ela inaugura um ponto de virada. Nela desponta a semente de um novo tempo, de uma nova humanidade, de uma nova criação. Ao dar nome ao Menino Deus, José o reconhece como filho e o introduz legitimamente na descendência de Davi. Embora concebido virginalmente pelo Espírito Santo, Ele é verdadeiramente o Messias, Filho de Deus e filho de Davi, graças à paternidade legal assumida por José. Deus o envolve em seu projeto para inserir o Filho na linhagem davídica e cumprir as Escrituras.
No Emanuel, “Deus-conosco”, realiza-se plenamente o mistério anunciado pelos profetas: somente Deus fazendo-se homem e vindo ao encontro dos homens pode oferecer a salvação que supera a divisão e a desumanidade do pecado e inaugura uma humanidade integrada e divina, sem culpa e cheia de benção.
Esse Advento é um dom gratuito e, ao mesmo tempo, desafiador, pois acolhê-Lo como humano exige escolhas que muitas vezes implicam renúncias, desapegos, nova orientação de vida e bom sentido teológico. A vinda do Senhor só é reconhecida por homens e mulheres capazes de olhar além do imediato, guiados por estrelas, sonhos, visões e atentos às diversas formas da Revelação divina. Sensíveis à delicadeza de Deus, chegam à manjedoura e unem sua voz ao canto dos anjos: “Glória a Deus nas alturas!”. Ao recordar o evento de Belém, renovamos a memória de como o Deus Filho entrou na história e de como a história ocupou o tempo de Deus no objetivo de fortalecer nossa esperança em Sua vinda gloriosa, constante e diária.
Senhor, ajuda-me a sonhar mais para reconhecer teus caminhos de revelação. Dá-me generosidade para deixar meus próprios projetos e acolher os teus. Ensina-me, como José, a viver o silêncio, a fé e a obediência. Que teus desígnios sejam maiores que meus cálculos. Purifica meus desejos de justiça para que eu supere toda lógica que oprime e, assim, revele tua misericórdia abundante e sem limites.




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