Quando a fé deixa de ser obrigação

Após o interrogatório dos saduceus, os fariseus voltam a questionar Jesus, procurando colocá-lo em contradição: “Qual é o maior mandamento da Lei?”. Aquilo que deveria iluminar o caminho do povo havia se tornado, muitas vezes, um pesado conjunto de prescrições. A religião corria o risco de permanecer na exterioridade, multiplicando normas sem alcançar verdadeiramente a vida.
Diante dessa complexidade, Jesus reconduz toda a Lei ao seu centro e à sua fonte: o amor. Não acrescenta mais um preceito aos muitos existentes, mas oferece a chave para compreender todos eles. Tudo encontra seu sentido quando conduz ao amor a Deus e ao próximo.
Com poucas palavras, Jesus não elimina nem banaliza a Lei, mas revela sua essência e indica o caminho para vivê-la: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu ser”. E acrescenta: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Toda a Lei e os Profetas dependem desses dois mandamentos. O amor, portanto, não é apenas mais uma exigência entre tantas outras, mas o princípio que dá sentido a todas elas.
Não existe verdadeiro amor a Deus que não alcance concretamente a vida do próximo. A fé deixa de ser simples cumprimento de obrigações quando transforma nossa maneira de viver e de nos relacionar.
Os mandamentos não são apenas ordens, mas revelam possibilidades para uma vida plena e realizada. Eles são luz para o caminho e expressão de uma relação que transforma a existência. Não é a observância que nos garante uma relação com Deus; é a relação com Ele que desperta em nós o desejo de viver segundo sua vontade. Quando a fé se reduz ao cumprimento exterior de normas, pode tornar-se pesada, estéril e até mesmo farisaica. Quando nasce do encontro com Deus, porém, a própria observância adquire outro sentido: torna-se resposta de amor. Obedecemos não para sermos amados por Deus, mas porque primeiro experimentamos que somos amados por Ele.
Amar a Deus significa também reconhecer que a própria vida é dom recebido gratuitamente de suas mãos. Não somos o fundamento de nossa existência: recebemos a vida e somos chamados a entregá-la todos os dias. Por isso, amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a mente significa permitir que Ele alcance a totalidade do que somos. O amor cristão não pode ser parcial, ocasional ou limitado a determinados momentos da vida. Ele exige disposição, vontade e entrega, tornando-se uma maneira concreta de existir. Amar a Deus é transformar a própria existência numa resposta cotidiana de gratidão pelo dom que continuamente recebemos.
Jesus também não nos convida a um altruísmo sem sentido e sem limites, como se amar significasse simplesmente esquecer-se de si mesmo. Ele nos ensina a amar o próximo “como a nós mesmos”. Há, portanto, um movimento profundamente humano: receber o amor de Deus, reconciliar-se consigo mesmo e fazer-se próximo dos irmãos. O Evangelho não nos leva apenas a perguntar quem é o nosso próximo, mas nos ensina a nos tornarmos próximos daqueles que encontramos pelo caminho.
Fazer-se próximo é um dos critérios que revelam a verdade de nossa relação com Deus. O amor recebido torna-se amor oferecido, reconhecendo no outro um rosto, uma história e uma vida que merecem cuidado.
Por isso, amar a Deus, amar a si mesmo e amar o próximo não são movimentos separados. Quem não consegue acolher a própria história, seus dons, feridas, limites e fragilidades corre o risco de rejeitar no outro aquilo que ainda não reconciliou dentro de si. Daí podem nascer a inveja, o julgamento, a comparação e até aquele farisaísmo que transforma a religião em medida para condenar os outros. O amor de Deus, ao contrário, reconcilia-nos conosco e nos torna capazes de sair de nós mesmos. “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” permanece, assim, uma palavra profundamente atual. O amor cristão nasce de Deus, transforma nosso interior e nos faz próximos dos irmãos.




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