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O dom recebido e a ilusão do poder

Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
há 3 horas
3 min de leitura

O Evangelho apresenta uma nova parábola sobre a vinha, conhecida como a parábola dos vinhateiros assassinos, dirigida aos líderes religiosos que rejeitam Jesus. Um proprietário planta uma vinha, cerca-a, prepara o lugar para as uvas, constrói uma torre e a arrenda a vinhateiros. Chegado o tempo da colheita, envia seus empregados para receber os frutos, mas eles são maltratados e mortos. A vinha é uma imagem frequente no Antigo Testamento para designar o povo eleito. Como Isaías, Jesus utiliza essa imagem para falar da obra de Deus e da resposta humana. Contudo, aqui a vinha não é abandonada nem destruída: diante da infidelidade dos vinhateiros, Deus intervém e abre um novo caminho.


A imagem da vinha também evoca o jardim da criação, espaço da relação entre Deus e seu povo. A cerca, o lugar para esmagar as uvas e a torre manifestam o cuidado atento do proprietário, que prepara e protege sua vinha como um tesouro. Plantar, cercar, preparar e construir são ações coordenadas que revelam o cuidado progressivo de Deus por aquilo que lhe pertence. A torre, como elemento central, pode recordar a árvore do jardim e a Lei como critério de orientação para a vida do povo. Diante dessa imagem, Israel é chamado a perguntar-se como vive sua relação com Deus e como corresponde ao cuidado que recebeu.


O objetivo de Jesus é revelar a dramática relação entre Deus e seu povo. Para manter viva sua presença e preparar o caminho de retorno, Deus enviou os profetas para exortar, defender e recordar a Aliança. Contudo, os vinhateiros rejeitaram os enviados: agarraram, espancaram, apedrejaram e mataram uns após outros. O proprietário continuou enviando novos empregados, cada vez mais numerosos, mas todos tiveram o mesmo destino. Eles não queriam entregar os frutos da vinha, porque desejavam guardá-los para si ou porque nada tinham produzido. Por fim, o proprietário enviou seu próprio filho, mas também ele foi morto, pois os vinhateiros quiseram tomar posse da herança.


A imagem é clara: a vinha foi confiada aos agricultores, mas não lhes pertence. Tudo o que somos e temos é dom recebido e permanece, em última instância, pertencente a Deus. O proprietário, porém, afasta-se e deixa os vinhateiros livres para cuidar da vinha, confiando na responsabilidade deles. Essa ausência não significa abandono, mas manifesta um Deus que confia e respeita a liberdade humana.

O problema começa quando a liberdade se transforma em ilusão de posse. Já não reconhecemos o verdadeiro proprietário e passamos a agir como se tudo nos pertencesse. A tentação, então, é ocupar o lugar de Deus e transformar o dom recebido em propriedade.

Chegada a hora da colheita, somos chamados a devolver a Deus os frutos daquilo que recebemos e a reconhecer que não somos os donos. Muitas vezes, porém, resistimos a essa realidade e rejeitamos tudo o que nos recorda nossa condição de criaturas. O tempo da restituição nos conduz, por excelência, à entrega da própria vida. Quando não aprendemos a devolver o pouco que nos foi confiado, também encontramos dificuldade para entregar o muito que recebemos. Apegados a nós mesmos, transformamos a existência em luta e padecimento. A verdadeira liberdade nasce quando reconhecemos que tudo é dom e aprendemos a restituí-lo à sua Fonte.


A resposta dos vinhateiros revela o que acontece quando a autoafirmação e o desejo de domínio rompem a relação com Deus. Convencidos de que são os verdadeiros donos da vinha, tornam-se surdos à mensagem dos enviados e rejeitam o próprio Filho. Essa dinâmica também pode aparecer em nossa vida, na sociedade e até na Igreja, quando nos apropriamos daquilo que nos foi confiado. Jesus torna-se, então, uma ameaça ao nosso modo de pensar e agir e acaba sendo excluído. Quando ocupamos o lugar de Deus, perdemos a capacidade de acolher o dom, a correção e a novidade que vêm dele. E, ao tentar preservar aquilo que julgamos possuir, podemos acabar destruindo justamente aquilo que recebemos para cuidar.

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