top of page

Entre o sim e o não, a verdade do coração

Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
há 6 horas
3 min de leitura

A parábola de hoje é dirigida àqueles que se consideram sábios, conhecedores da Lei de Deus e fiéis guardiões da tradição. Diante dos anciãos e sacerdotes, Jesus apresenta um pai e dois filhos, com atitudes bem diferentes. O primeiro recebe o pedido do pai e responde: “Não quero”. No entanto, depois reflete, arrepende-se e vai trabalhar na vinha. O segundo responde prontamente: “Sim, senhor”, mas não vai. Jesus pergunta qual dos dois fez a vontade do pai, e eles reconhecem que foi o primeiro.

Assim, Jesus mostra que a relação com Deus não pode se limitar às palavras ou às aparências, mas precisa chegar à vida.

O problema não está apenas na resistência de um ou na prontidão do outro, mas na sinceridade com que cada um se coloca diante do pai e de si mesmo. Nenhum dos dois se comporta perfeitamente: o primeiro começa pela recusa, enquanto o segundo diz o que o pai deseja ouvir, mas não cumpre o que promete. A diferença está no que acontece depois. O primeiro é capaz de rever sua decisão, reconhecer o próprio erro e retomar o caminho. O segundo permanece preso à palavra que pronunciou, mas não a transforma em atitude.

Deus não procura filhos que apenas saibam dizer as palavras certas, mas aqueles que permitem que o coração se converta e a vida responda ao seu amor.

Mateus coloca diante de nós uma realidade desconcertante: há aqueles que dizem “sim” a Deus, à vida e às suas exigências, mas não se comprometem verdadeiramente com a vontade do Pai. São religiosos, sacerdotes e anciãos que conhecem as regras e procuram cumpri-las exteriormente, mas acabam tratando Deus mais como um patrão do que como um Pai. Em contraposição, aqueles que dizem “não” podem ser justamente os que, depois, encontram o caminho da conversão. Jesus não exalta a desobediência, mas a possibilidade de mudar, reconhecer-se e voltar ao caminho. O que importa é que a resposta dada a Deus se torne vida.


Por isso, as palavras de Jesus sobre os publicanos e as prostitutas soam tão fortes aos nossos "piedosos ouvidos". Eles eram colocados à margem e considerados distantes da vida religiosa e da santidade. No entanto, Jesus percebe neles algo que os outros já não conseguiam perceber: a capacidade de reconhecer a própria necessidade de Deus. Não vivem sustentados pelas aparências ou pela preocupação de parecer justos diante dos outros. Sua relação com Deus pode nascer de uma liberdade mais simples, porque sabem que precisam ser acolhidos, perdoados e transformados. Jesus encontra neles uma verdade que ultrapassa as aparências e alcança o coração.


Talvez a grande provocação da parábola esteja justamente aqui: os dois filhos moram dentro de nós. Há em nós um coração que quer dizer sempre “sim”, mas que, muitas vezes, transforma Deus em patrão e a fé em obrigação. Há também outro coração que resiste, questiona, se revolta e, às vezes, diz “não”, mas que é capaz de voltar atrás e recomeçar. Essas duas atitudes se alternam ao longo da vida.

Nosso coração é ambíguo, marcado por contradições, desejos escondidos e vontades sombrias, mas também por sensibilidade, misericórdia e desejo de relações verdadeiras. A parábola nos coloca diante dessa verdade que habita em nós.

Na relação com Deus, não precisamos fingir nem esconder aquilo que somos. A verdade consigo mesmo e a clareza diante de Deus nos libertam de tantos medos e nos permitem viver uma fé mais simples e luminosa. A parábola, portanto, não é apenas um convite a reconhecer nossa ambiguidade, mas a buscar autenticidade. Deus não deseja empregados presos ao dever, mas filhos livres e adultos, capazes de fecundar a história não com palavras vazias ou conhecimento perfeito da lei, mas com presença real, liberdade verdadeira e coração disponível.

 

Comentários


© 2023 por NÔMADE NA ESTRADA. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook
  • Instagram
bottom of page