A imagem de Deus não tem preço

Atualizado: há 13 horas
Antes de concluir seu Evangelho, Mateus relata três disputas entre Jesus e os fariseus. Após as parábolas, os confrontos tornam-se mais intensos, pois os líderes religiosos percebem que os ensinamentos de Jesus questionam seu modo de viver. A primeira discussão envolve uma questão política; as outras duas tratam da ressurreição e do maior mandamento. O ensinamento de Jesus, simples e profundo, é acolhido pelos humildes de coração, pois suas palavras estão fundamentadas em uma vida coerente e autêntica.
Os fariseus procuram, então, colocar Jesus à prova, fazendo perguntas com a intenção de desacreditá-lo diante do povo, provocar conflitos com os romanos e confundir aqueles que acreditavam nele. Começam com elogios: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus”. Contudo, por trás dessas palavras, escondem a hipocrisia e a intenção de comprometer Jesus.
O Mestre, com liberdade, sabedoria e inteligência, percebe a armadilha e desmascara a falsidade daquele discurso. Sua atitude nos ensina que a verdade não se deixa vencer pelas aparências e que a fidelidade ao Evangelho exige discernimento diante das palavras e das intenções humanas. A religião, quando colocada a serviço de interesses particulares, pode deixar de ser caminho de encontro com Deus e tornar-se instrumento de influência e domínio sobre as consciências.
Os habitantes da Judeia, da Samaria e da Idumeia viviam sob o domínio romano e pagavam impostos ao imperador César, cuja imagem estava impressa nas moedas. Assim, o dinheiro também se tornava instrumento de afirmação do poder imperial. Nesse contexto, os fariseus perguntam a Jesus: “É lícito ou não pagar imposto a César?”. A pergunta escondia uma armadilha: se Jesus negasse o pagamento, seria acusado de se opor a Roma; se o aprovasse, correria o risco de perder a confiança do povo, especialmente dos mais pobres, oprimidos pelos impostos. Jesus, porém, não se deixa aprisionar por essa lógica e responde de maneira surpreendente: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
A resposta de Jesus vai além de uma simples separação entre o poder civil e o religioso. A moeda pertence a César, mas a pessoa humana pertence a Deus, que a criou à sua imagem. Quem olha a moeda vê César; quem olha o ser humano vê a imagem de Deus nele moldada. Na dinâmica do Evangelho, contrapõem-se a lógica dos poderes que dominam e a lógica do Reino, fundamentada no amor e no serviço. Não é possível professar a fé em Deus, anunciar sua misericórdia e, ao mesmo tempo, praticar a injustiça, a exclusão, a destruição do outro e a vingança. Tampouco se pode transformar o nome de Deus em argumento para legitimar projetos de poder, como se determinadas lideranças ou posições políticas fossem, por si mesmas, expressão da vontade divina. O apego aos “césares” de cada época constitui uma tentação sedutora, pois transforma o poder em ídolo e alimenta a ilusão de que a dominação traz segurança. Jesus nos recorda que nada pode ocupar o lugar de Deus em nossa vida.
A expressão “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, tão conhecida em nossos dias, pode também inspirar uma leitura provocadora: retirar de César aquilo que pertence a Deus. Dar a Deus o que é de Deus significa restituir-lhe a dignidade humana, permitindo que a pessoa se reconcilie consigo mesma, seja curada em suas feridas e se liberte de seus interesses egoístas. Significa devolver ao ser humano a capacidade de estabelecer relações saudáveis, reconhecendo no outro a imagem do Criador.
Trata-se de retirar das mãos dos “césares” de nosso tempo a pessoa aprisionada por poderes que a reduzem a objeto, mercadoria ou instrumento de interesses econômicos e ideológicos. Quando a fé é usada para alimentar a hostilidade, justificar a violência ou dividir as pessoas entre supostos defensores de Deus e seus inimigos, o Evangelho acaba sendo submetido a uma lógica estranha àquela de Jesus.
Restituir a Deus o que é de Deus é favorecer a reconstrução de sua imagem e semelhança em nós. Criados à imagem de Deus, somos chamados a crescer na semelhança com Ele, conformando diariamente nossos sentimentos aos de Cristo, o Filho de Deus feito homem. Quem olha para a moeda vê César; quem contempla a vida humana é chamado a reconhecer a presença de Deus. Como afirma Jesus: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9). A espiritualidade consiste também em permitir que o Espírito restaure em nós a bondade e a beleza com que fomos criados. Assim, damos menos espaço à hipocrisia, à maldade e à perversidade e nos aproximamos da plenitude humana desejada por Deus.




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