O novo rosto de Deus
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 29 de jan. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de fev. de 2022
O início do ministério de Jesus foi marcado pela admiração e pela incompreensão de seus contemporâneos. Ele escolheu a Sinagoga de Nazaré, lugar de seu crescimento, para manifestar-se publicamente. O texto profético proclamado por Ele havia esperança e animava o povo em tempo de opressão. A sua “homilia” é concisa: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Ele é a Boa Notícia de que Isaías anunciava. A Sua presença revela que a Palavra de Deus não é promessa, mas cumprimento da realidade.
A chegada de Jesus na Sinagoga foi bem acolhida: “todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca”. No entanto, a reação dos habitantes de Nazaré, após o discurso de Jesus, muda rapidamente da admiração à incompreensão. A admiração do primeiro instante transformou-se em agressão e rebelião contra Ele. Para reconhecer a autoridade de Jesus os que se faziam presentes queriam sinais e milagres: “Faze também aqui, em tua terra, tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum”.
Jesus, penetrando as mentes e os corações, entende imediatamente aquilo que estavam pensando seus conterrâneos. Entretanto, não aceita a lógica deles porque esta lógica não correspondia o plano de Deus: Deus quer a fé enquanto eles querem milagres e sinais; Deus quer salvar todos, enquanto eles desejam um Messias que salve apenas alguns poucos e eleitos pelos próprios.
Há um fato, pouco explícito, relatado por todos os evangelistas: os habitantes de Nazaré e os próprios parentes de Jesus não acreditavam nele (cf. Mc 3,21; Jo 7,5). Mateus e Marcos colocam esta recusa no final da pregação na Galileia (Mc 6,1-6; Mt 13,53-58), enquanto Lucas, coloca no início do ministério de Jesus. Os lugares onde Jesus era mais conhecido, na sua casa própria e no seu povoado, tornaram-se lugares em que Ele fora rejeitado, não mais ouvido e nem estimado por suas palavras.
O lugar onde Jesus tinha familiaridade, tornara-se lugar onde Ele pouco ou nada podia fazer. Dessa maneira, o Evangelho mostra-nos que seu ministério público começou com rejeição e ameaça de morte por parte daqueles que O conheciam.
A desvalorização é um mecanismo de defesa sutil, usada em ambientes familiares. Em lugares em que se espera reconhecimento, muitas vezes, há a desvalorização. As palavras de Jesus e o seu método eram tão inovadores para seus contemporâneos que Ele era desvalorizado naquilo que mais entendia. A atitude de Jesus de questionar os hábitos religiosos arraigados de tristeza, de leis injustas, de tranquilidade perversa, medíocre e doentia gerou a raiva, em seus ouvintes. A atitude fechada dos religiosos impediu-os de reconhecer o Novo, mesmo que diante deles estivesse o Cristo.
A pergunta dos habitantes de Nazaré – “Não é este o filho de José?” – tem o sabor de escárnio e de desprezo por conhecerem a proveniência da família pobre de Jesus. É curioso e significativo que esta questão ressoe novamente na boca dos judeus contra a pretensão de que Jesus seria “o pão que desceu do céu”: “Este não é Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que agora diz: “Eu desci do céu”? (Jo 6,42).
A mudança do maravilhar-se “pelas palavras cheias de graça” para uma total falta de estima e incredulidade é imediata, mas não ilógica. Na sinagoga de Nazaré, o objetivo de seus interlocutores é semear a discórdia contra a autorrevelação da identidade divina, do novo rosto de Deus e da autoridade messiânica de Jesus.
Entretanto, Jesus lê a rejeição como confirmação de seu ministério profético e se coloca na esteira dos profetas Elias e Eliseu. A rejeição dos seus concidadãos torna-se a ocasião pela qual Jesus abre o seu ministério e o anúncio universal da salvação de Deus a todos os povos (cf. Lc 3,6; 7,9; At 28,28).
As “palavras de graça” eram inaceitáveis e irritavam a assembleia. Elas desafiavam a mesquinhez do pensamento, a mediocridade dos sentimentos e a pequenez das convicções religiosas. O anúncio de um ano da graça marcado pelo perdão de todos os débitos e pela benevolência incondicional de Deus era um fato quase impossível. O contraste entre a mentalidade tradicional que esperava um Messias glorioso, vitorioso e vingador e as “palavras de graça” proclamadas por Jesus marcará toda a vida pública de Jesus: “este menino está aqui destinado a causar a queda e o soerguimento de muitos em Israel, e a ser um sinal de contradição, de modo que o pensamento de muitos corações seja revelado” (Lc 2,34-35).
Os ouvintes irritam-se, sobretudo, quando tomam consciência de que no texto de Isaías, proclamado por Jesus, faltava o trecho: “o dia da vingança do nosso Deus”. Para os religiosos que conduziam a assembleia, esse trecho era o mais interessante enquanto para os que frequentavam a mesma assembleia, o trecho garantia perseverança e fidelidade. Não era uma promessa libertadora que os fazia prestar culto a Deus, mas o “dia da vingança”. Os habitantes de Nazaré, como os israelitas, ansiavam por essa vingança sobre os outros e desejavam a intervenção punitiva de Deus contra os pagãos.
A última frase do texto – “Jesus, porém, passando pelo meio deles, continuou o seu caminho” – serve-nos como a abertura, não apenas, do posterior evento terrestre de Jesus, mas sobre o evento pascal e sobre a história salvífica. A salvação anunciada e concretizada em Jesus faz-se presente com o seu caminhar nas estradas da Galileia entre os homens e as mulheres do seu tempo, tornando-se o caminho que, pelo Espírito Santo, possibilita levar o Evangelho aos confins do Universo.
Senhor, tua presença em nosso meio é sinal de admiração e gratidão. Não permita que a incompreensão dos teus projetos e das tuas Palavras me feche ao teu amor tornando-me medíocre e doente. Ensina-me a abrir o coração à gratuidade e à universalidade da salvação. Que o seguimento ao teu Evangelho não seja entendido por mim como medo do teu julgamento, mas que eu compreenda, aceite e O vivencie como proposta do teu amor e da tua misericórdia ilimitada por mim.
LFCM.




Amém Amém Amém. Obrigada Frei a Misericórdia do Senhor é pra mim uma grande graça. Reze por mim, estou em um momento q necessito de muitas orações. Gratidão sempre.