O esconderijo de Deus
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 25 de nov. de 2023
- 4 min de leitura
O Evangelho de Mateus está dividido em cinco grandes sermões: o sermão da montanha, o sermão da missão, o sermão das parábolas, o sermão da comunidade e o sermão escatológico. Neles podemos encontrar a imagem do Messias-Servo, a nova justiça, a vontade do Pai, as grandes discussões com os fariseus e escribas, o discipulado, a comunidade e a missão. Por causa de seu caráter catequético, esse Evangelho ganhou um lugar de destaque entre os demais e tornou-se, por excelência, um evangelho eclesial e didático. Seu fundamental objetivo é instruir a comunidade dos discípulos de Cristo.
Nas últimas semanas, através de algumas parábolas, acompanhamos os discursos escatológicos. O ensinamento essencial aconteceu em torno do sentido do verbo “vigiar”. A vigilância é o sal de todo agir, a luz do pensar, do escutar e do falar. A vigilância é a fonte de toda virtude humana e cristã. Se nos mantivermos vigilantes entraremos no banquete das núpcias, participaremos da alegria e da generosidade do dono da festa e receberemos como herança o Reino preparado pelo Pai. Dessa maneira, este último domingo do ano litúrgico nos aponta o fim. O juízo final é uma síntese do Evangelho de Mateus.
Esse tempo final é o tempo de releitura para reflexão daquilo que ficou, do que aprendemos e de como foi nossa caminhada cristã. O texto evangélico não é propriamente uma parábola, mas tem o objetivo de dizer como devemos viver hoje. Os anos da vida de um homem são um bem precioso, são um tesouro que deve ser investido. Não se pode errar porque só existe uma vida. Portanto, o texto sintetiza o julgamento final a partir do verbo “amar”.
O amor não é um compromisso extraordinário, mas o estilo de vida. É um estilo de vida que abre os olhos para perceber o que é necessário hoje, a partir das pessoas que estão próximas de mim.
O que deve nos mover e nos interessar no texto “Juízo Final”, não é especular sobre as realidades últimas, mas dirigir nossa atenção e nosso pensamento sobre a realidade presente. Às vezes, nos perdemos em elaborações ideais e fantasiosas, românticas e demasiadas do amor. Isso acontece porque não queremos olhar a realidade ao nosso redor. Devemos viver aquilo que realmente existe, sem elaborar fantasias mirabolantes e projetos distantes.
Na parábola evangélica, aqueles que assumiram o cuidado dos outros, nem se deram conta daquilo que fizeram: era normal, era um estilo. Tudo parecia tão normal que eles nem se deram conta de que estavam fazendo algo extraordinário e divino.
O Evangelho de hoje é claro e categórico. Não há espaço para interpretações demasiadamente complexas. Às vezes, nos questionamos onde encontrar Deus e mergulhamos em acirrados debates teológicos. Jesus nos diz com muita simplicidade onde encontrá-Lo: no rosto do menor dos irmãos! Não é preciso ir longe. Deus é tão grande que consegue ficar naquele que mais precisa. Por isso, Ele está entre nós e tantas vezes não O reconhecemos em nossos encontros cotidianos. Ele se mostra fraco e necessitado. Não O reconhecemos porque estamos amarrados na imagem de um Deus forte, poderoso e dominador, controlador e autoritário, criterioso e autorreferencial. O Rei do Evangelho se esconde na fragilidade daqueles que caminham ao nosso lado.
No entanto, o poder de Jesus é o poder que se revela na “impotência”. Ele é a comida dos famintos, a bebida dos que tem sede, a veste dos nus, a saúde dos doentes, a hospedagem dos perdidos e a liberdade dos prisioneiros. Todas as vezes que damos de comer a um faminto e de beber a um sedento, que vestimos um nu, hospedamos um perdido e libertamos os presos é a Ele que estamos servindo. Ele é o faminto, o sedento, o estrangeiro, o nu e o prisioneiro. Ele é o Pastor que não machuca, não maltrata e não condena. Ele é o Pastor que ama, que se interessa e que dá a vida ao outro.
A linguagem e as imagens utilizadas por Jesus são fortes e não devem enganar-nos. O julgamento final não deve ser um momento de terror que nos encherá de angústia diante de um Deus “justiça”. O Juízo Final é o encontro com o Rei do Amor que virá até nós, sentado em seu trono de cruz. Um encontro que nos lembrará o que realmente importa na vida: amar e ter vivido no amor. Hoje devemos reconhecê-Lo em quem tem fome, tem sede, no estrangeiro, no doente etc. Então, seremos julgados por um Deus que nos ama e deseja ver que respondemos fielmente ao Seu amor desfrutando do amanhã com Ele da Eterna Alegria.
O juízo final não é uma teoria, um “princípio” ou uma “doutrina”, mas é algo concreto, histórico e cotidiano. É agora, no hoje da minha história, que decido o que será de mim amanhã. É hoje, na trama repetitiva do cotidiano, que estamos escolhendo quem seremos para sempre. Quem reconheceu o amor durante a vida, será reconhecido pela Fonte do Amor. O amor tudo ilumina, pois sem ele tudo é escuridão. A nossa vida cristã não pode se perder num emaranhado de normas, doutrinas, leis e práticas que nos afastam da essência do Evangelho e da vida de Jesus. O nosso compromisso primeiro é aliviar todo sofrimento humano, reconstruir vidas feridas, excluídas e marginalizadas restaurando corações e relações rompidas.
O inferno pode até existir, mas não é um lugar criado por Deus para punir, no final da vida, quem se comportou mal. É uma condição de infelicidade e desespero criada pelo pecado. O inferno não é um tipo de castigo, uma espécie de vingança divina. Nele se tem a possibilidade de olhar apenas para nós mesmos e para as nossas vontades eternamente. No inferno não se olha nem para o alto e nem para o lado, somente se consegue olhar para baixo. O Evangelho de hoje nos ensina que a única pergunta no julgamento final será: você viu quem estava ao seu lado? É somente o Cristo que pode nos libertar da autorreferencialidade, pois do alto do trono da cruz, Ele nos convida a olhar não para nós próprios, mas para o alto. Ele nos convida a olhar para o outro do nosso lado e não apenas para o nosso desejo de ser ouvido pelo Pai, pois seremos julgados pelo amor.
Senhor, ensina-me a amar e a entender que o amor é um estilo de vida. Ajuda-me a encontrar-te nos mais vulneráveis e frágeis da história. Educa-me a olhar para o alto a fim de que eu não viva a vida e a minha eternidade olhando apenas para mim mesmo.
LFCM.




Boa Noite Frei gratidão por me enviar em tão simples palavras como devemos amar o Senhor. Paz e Bem