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O Coração reconciliado

  • Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
    Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura

Encontramo-nos diante de uma das páginas mais intensas e desafiadoras do Evangelho: o Discurso da Montanha, que ocupa três capítulos do Evangelho de Mateus (Mt 5–7). É o primeiro e o mais extenso dos cinco grandes discursos atribuídos por Mateus a Jesus, quase como uma grande síntese do seu ensinamento.

Nesse cenário simbólico da montanha, lugar do encontro com Deus, o Senhor não se limita a transmitir normas ou corrigir comportamentos externos; Ele revela a lógica profunda do Reino e apresenta o rosto do verdadeiro discípulo. Trata-se de um ensinamento que não se contenta com aparências, mas alcança o coração da vida cristã.

Todo esse discurso precisa ser lido à luz das Bem-aventuranças, que funcionam como porta de entrada e chave de interpretação de tudo o que vem depois. Sem esse horizonte, as exigências do Discurso da Montanha podem parecer duras ou até impossíveis; com ele, revelam-se como um itinerário de felicidade verdadeira, enraizado na confiança em Deus e no amor aos irmãos. No Evangelho proclamado hoje, Jesus vai ao núcleo das nossas atitudes e amplia a compreensão da Lei, conduzindo-a à sua plenitude.


Ele parte de um mandamento conhecido, frequentemente interpretado de maneira literal e externa, e o aprofunda, revelando que a justiça do Reino não se mede apenas por atos visíveis, mas pelas disposições interiores. Não se trata de abolir ou relativizar a Lei, mas de levá-la à sua realização mais autêntica. Jesus mostra que a verdadeira fidelidade não é mínima nem superficial; ela é radical porque nasce do amor e transforma a intenção, o pensamento e o desejo.


No primeiro exemplo, Jesus recorda: “Não matarás”, mas imediatamente nos conduz além da proibição do gesto extremo. Ele nos leva ao interior do coração, onde os conflitos realmente começam. O mal não irrompe de modo repentino; ele cresce em silêncio. Aquele que é chamado a ser irmão pode, pouco a pouco, tornar-se adversário. O homicídio segue uma progressão quase imperceptível: começa na ira cultivada em segredo, passa pela palavra que fere e humilha, amadurece no desprezo que desqualifica e, por fim, desemboca na ruptura. Antes que as mãos ajam, o coração já se deixou dominar. Jesus não quer apenas evitar crimes; deseja curar a raiz do mal e restaurar a verdade das nossas relações fraternas.


Para quebrar essa dinâmica, é necessário escolher conscientemente o caminho contrário ao impulso da raiva. Quando a ira nos leva a elevar o tom de voz, o Evangelho nos chama à mansidão; quando nos fecha em nós mesmos, convida-nos à abertura e ao diálogo; quando nos faz esperar que o outro tome a iniciativa, Cristo nos pede a coragem do primeiro passo.

Buscar a reconciliação, mesmo quando não fomos os causadores da ofensa, é sinal de maturidade espiritual e de liberdade interior. Talvez o outro não compreenda nem acolha de imediato o gesto, mas isso não diminui o valor da decisão tomada. O essencial é a conversão do nosso próprio coração: purificar intenções, vigiar pensamentos, moderar palavras e não permitir que o ressentimento se instale.

A reconciliação deve ser sempre buscada, pois, quando não o fazemos, as situações tendem a fugir ao nosso controle. Jesus apresenta a imagem concreta do caminho que vai do juiz ao guarda e, depois, à prisão. Essa prisão, porém, é antes de tudo interior: a prisão do rancor, do ressentimento e do ódio alimentado ao longo do tempo. Quando nos fechamos nela, ficamos aprisionados às nossas feridas e às nossas justificativas repetidas sem cessar. Quanto mais tempo permanecemos ali, mais difícil se torna sair. Por isso o Evangelho nos convida a agir prontamente, a não deixar que o sol se ponha sobre a nossa ira, a romper a corrente enquanto ainda é possível. A reconciliação não é fraqueza; é força evangélica, é sinal de um coração livre que não permite que o mal crie raízes e que escolhe permanecer na lógica do amor.


Senhor, dai-me um coração manso, capaz de reconhecer e vencer a ira antes que ela crie raízes. Ensina-me a cuidar das minhas palavras, para que nunca firam ou humilhem, mas sejam sempre instrumento de paz. Concede-me a coragem de dar o primeiro passo na reconciliação. Livra-me do rancor e do ressentimento, para que possa viver na alegria da comunhão e participar dignamente da tua mesa.

 

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