A vontade do Criador
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 2 de out. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 3 de out. de 2021
O diálogo com quem não crê, a caridade para com os irmãos, o escândalo, a relação com os pequenos, a propriedade e a riqueza são os temas centrais do Evangelho de Marcos. Neste contexto, coloca-se ainda a questão da relação entre homem e mulher. A narração abre-se com uma provocação dos fariseus: “É lícito ao marido separar-se da sua mulher?”.
Respondendo à pergunta, Jesus esclarece o verdadeiro significado da lei de Moisés, que ele não pretende abolir, mas explicar e dar plena realização. A resposta de Jesus surpreende a todos. Ele não foca na questão do repúdio-divórcio, mas indo em outra direção, exalta a dignidade da mulher.
A mentalidade escrupulosa dos fariseus reduzia o relacionamento do homem com Deus e com os outros à uma questão de lícito ou ilícito. Entre Jesus e os fariseus existia um modo diferente de interpretar as Escrituras. Com isso, Jesus esclarece o significado do texto bíblico. Não foi Moisés - ele explica - quem introduziu o divórcio. Essa instituição existia muito antes dele e foi aceita como legítima. Moisés colocou algumas disciplinas para acabar com os abusos. Não exigindo um comportamento moral superior ao de outros povos, por causa da dureza dos corações. Ele se limitou a escrever uma norma que protegesse a mulher.
Acontecia que alguns homens expulsavam as mulheres de casa, casavam-se com outra e, se a primeira decidisse entrar numa nova relação, era acusada de adultério e condenada à morte. Estes homens queriam resguardar o direito de repudiar uma mulher, no entanto, sem manchar a consciência. Eles de alguma forma procuravam maneiras para justificar o egoísmo e os abusos. Para Jesus esta tentativa é intolerável e injusta. Ele se opõe a toda instrumentalização da lei mosaica.
Jesus aceita o fato de Moisés ter escrito essa norma disciplinar, contudo, centraliza que ela foi feita apenas por causa da “dureza de coração”. Jesus se desvencilha, imediatamente, da casuística jurídico-religiosa dos fariseus e, de acordo com a sua missão, volta à vontade originária de Deus atestada em Gn 1,27 e 2,24. A resposta de Jesus não é casuística-jurídica, mas religiosa. A aliança existente entre os homens é um espelho da aliança que une YHWH ao seu povo e a toda a humanidade.
A relação conjugal torna-se a emblemática de todas as outras relações, por isso, Jesus se refere à criação para compreender o seu significado. No projeto originário do Criador, o homem e a mulher são chamados a reconhecerem-se, completarem-se e ajudarem-se reciprocamente no matrimônio. O homem não foi feito para a solidão. No ato de procurar outra pessoa, existe o desejo de se sentir reconhecido. O outro, diz Gênesis, é parte de mim. E somente o outro pode preencher o vazio que, inevitavelmente, carregamos no interior.
Moisés tentou humanizar a prática do divórcio, exigindo um caminho jurídico de proteção à mulher. Jesus, olhando para a dureza de coração dos destinatários da Torá, tenta dar passos mais largos e volta-se para a intenção do Criador, ao formar homem e mulher. É sempre este o caminho escolhido por Jesus. A atitude de Jesus é coerente com toda sua trajetória. Ele procura ser autêntico intérprete da Lei não pelo legalismo, nem através de fundamentalismos baratos, mas proclamando de forma profética, a vontade de Deus, em particular, com os pecadores públicos e excluídos. A lucidez de Jesus é revelada no seu posicionamento decidido a favor dos últimos, dos pequenos, das mulheres e das crianças.
O objetivo central de Jesus foi proteger aqueles que se encontravam em situação de desvantagem. Seu discurso é chocante para os discípulos. É difícil admitir que ele nos pede para deixar de lado nosso egoísmo. Mais uma vez, Jesus não está interessado em uma questão teórica, mas na verdade real das pessoas.
As palavras de Jesus terminam com uma cena que mostra-se fora de contexto. Depois de ter abordado a questão do repúdio da mulher, Jesus defende as crianças, chamando-os a si e resgatando-os do opróbrio dos adultos. Mulheres e crianças são símbolos de todos aqueles que, em diferentes contextos, são os fracos, os quais recai a violência do poder, o abuso da força, muitas vezes escondido por trás de boas intenções. Ao contrário dos judeus e dos discípulos, Jesus não tem vergonha de receber as crianças em seus braços. Ele mostra sua ternura e sua capacidade de estar com os mais fracos. Jesus é o homem que não tem medo de ser incomodado.
Senhor, tua proposta igualitária é sempre um desafio. Muitas vezes, para justificar o meu egoísmo e os meus interesses, usei das normas que não acolhem. Reconheço que a autoridade da tua Palavra me ajuda a destruir a raiz do fundamentalismo barato, em todas as suas formas de controle, submissão e imposição. Livra-me de perverter a tua lógica. Traz leveza e liberdade ao meu coração. Ensina-me a ser um autêntico intérprete da Lei, vivenciando e proclamando de forma profética a vontade originária de Deus.
LFCM.




Obrigada Frei por me trazer a Palavra de Verdade, para eu poder cada vez mais ser estimulada a estudar e exercitar essa Palavra de Verdade. Paz e Bem. 🌻