A santidade: o humano tocado pelo divino

Hoje celebramos tantos irmãos e irmãs que nos precederam na glória e nos recordam o destino para o qual Deus nos chama. A santidade não é uma conquista reservada a pessoas extraordinárias, nem uma realidade que pertence somente ao fim da vida. É um caminho que começa no Batismo e se desenvolve ao longo de nossa existência. É dom de Deus e, ao mesmo tempo, resposta que damos a esse dom.
Tornar-se santo é permitir que o amor divino alcance nossa humanidade e transforme nosso modo de viver até que resplandeça a imagem de Cristo.
Os santos que celebramos talvez nunca tenham tido visões, realizado milagres ou feito grandes penitências. Foram homens e mulheres que conheceram as alegrias e as dificuldades da vida, tiveram dúvidas, cometeram erros e experimentaram suas limitações. Acolheram, porém, a proposta de Deus e se deixaram conduzir por sua misericórdia. Foram, como tantas vezes precisamos reconhecer que também somos, pecadores perdoados. Por isso, hoje não recordamos apenas os santos conhecidos e venerados pela Igreja, mas também aquela multidão incontável de pessoas que viveram o Evangelho no silêncio, sem reconhecimento ou aplausos. Pessoas que fizeram parte de nossas famílias, caminharam por nossas ruas, sentaram às nossas mesas e compartilharam conosco a vida de nossas comunidades.
A santidade não precisa de grandes acontecimentos para se manifestar. Ela não foge do tempo, do mundo e nem da história. Manifesta-se na fidelidade de cada dia, na mão estendida, no perdão oferecido, no cuidado com quem sofre e na capacidade de recomeçar. Os santos descobriram que amar a Deus também significa aprender a amar a si mesmos e aos outros. Não fugiram da realidade humana, mas fizeram dela o lugar de seu encontro com Deus.
Sua vida nos ensina que a santidade não consiste em deixar de ser humano, mas em viver plenamente nossa humanidade, permitindo que a graça transforme nossas relações e nossas escolhas. A santidade nasce no ordinário da vida.
É nesse horizonte que o Evangelho de hoje nos apresenta as Bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Jesus sobe à montanha, senta-se e ensina aos discípulos uma nova maneira de olhar a vida. Chama de felizes os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os misericordiosos, os que promovem a paz e os que têm fome e sede de justiça. Essa palavra parece contrariar a lógica do mundo, pois Jesus reconhece a felicidade justamente em situações nas quais, muitas vezes, só conseguimos enxergar sofrimento e dificuldade. As Bem-aventuranças revelam o próprio modo de viver de Jesus e tornam-se o caminho daqueles que desejam segui-lo.
A felicidade anunciada por Jesus não é uma recompensa distante, nem o resultado de uma vida sem problemas. É uma experiência que pode nascer mesmo em meio às contradições da existência, porque encontra sua força na presença de Deus.
Ser santo não significa alcançar uma perfeição autorreferencial, mas acolher o amor recebido e fazer dele uma maneira de viver. Os santos compreenderam isso: confiaram em Deus mesmo quando não tinham todas as respostas, encontraram forças para continuar e fizeram de suas vidas um espaço de acolhida, reconciliação e esperança.
Nesta solenidade, a Igreja nos convida a olhar para esses homens e mulheres e reconhecer neles o caminho de plenitude que também somos chamados a percorrer. Eles são os amigos de Deus, aqueles que procuraram sua face e se deixaram transformar pelo seu amor. Também nós somos a geração que procura a face do Senhor e deseja conhecer a grandeza de seu amor. Que o testemunho dos santos nos ajude a fazer das Bem-aventuranças o caminho de nossa existência. Afinal, a santidade não é uma humanidade sem fragilidades, mas uma vida que, com tudo aquilo que somos, se abre à presença de Deus e deixa seu amor transparecer no mundo.




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