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A Páscoa dos Discípulos: do Medo à Vida Nova

  • Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
    Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
  • 12 de abr.
  • 3 min de leitura

A morte de Jesus provocou nos discípulos uma profunda confusão interior. A dor pela entrega final do Mestre somavam-se sentimentos de fragilidade, fracasso e desilusão. Dominados pelo medo, recolheram-se e perderam a força para recomeçar, fechando-se em si mesmos. Aqueles dias difíceis evidenciavam o quanto era árduo reconstruir a esperança e retomar o caminho.

O sepulcro já estava aberto, mas as portas do cenáculo permaneciam fechadas, não apenas por temor das autoridades, mas sobretudo pela ausência de confiança na promessa. O coração dos discípulos ainda não havia se aberto à novidade da vida.

Entretanto, a força da vida nova, a paz do Espírito e a experiência comunitária manifestam-se como ação do Ressuscitado no interior desse espaço marcado pelo medo e pela culpa. A conquista da paz diante do remorso e o amadurecimento da fé diante da dúvida configuram um caminho longo, exigente e profundamente humano. As narrativas das aparições revelam justamente esse processo de transformação interior e comunitária.

A Páscoa precisava acontecer também na vida dos discípulos. Era necessário transformar o medo em coragem, o fracasso em aprendizado e o fechamento em abertura. A mesma força que abriu o sepulcro deveria alcançar seus corações.

A Ressurreição não é apenas a “passagem” de Jesus da morte à vida, mas a Páscoa que acontece na vida dos vivos e na história da comunidade. No meio daqueles corações marcados pelo medo, Ele se faz presente e oferece a paz como dom. Onde está o Ressuscitado, sua paz deve reinar, pois o Shalom, dom messiânico, confirma sua presença viva e atuante. Trata-se de uma paz que nasce como cura interior e reconcilia o coração ferido dos discípulos. Ao serem pacificados, tornam-se também portadores dessa paz. Enviados, passam a irradiá-la até os confins do mundo.


A resistência de Tomé é transformada quando ele percebe que sua dor e sua perplexidade haviam sido acolhidas com amor. Para ele, era difícil compreender uma morte tão dolorosa e, ainda mais, aceitá-la como parte do projeto amoroso de Deus. Sua expectativa de um Messias glorioso tornava-se obstáculo para entender o caminho da cruz e da entrega. Por isso, sua dúvida não nasce de simples incredulidade, mas de uma busca sincera por sentido e verdade.

Tomé deseja ver, tocar e experimentar o Ressuscitado. Ele recusa uma fé meramente abstrata, ideal ou distante da realidade.

Na sua dúvida, Tomé procurava e manifestava o desejo de fazer uma nova experiência e compreender mais profundamente o mistério de Cristo. Sua incredulidade não era negativa, mas uma atitude de busca, desejo e abertura ao encontro verdadeiro. O desejo de Tomé foi sentido e acolhido por Jesus, que respeita o tempo de cada discípulo.

Ao mostrar-lhe suas feridas, o Crucificado-Ressuscitado nada argumenta, não discute, não reprova e não exige explicações. Ele apenas revela as chagas da paixão vivida por amor. As mãos perfuradas e o lado aberto tornam-se sinais de um amor que compreende e salva.

Tomé, como cada um de nós, deseja uma “prova” e busca razões para sustentar sua fé. Chamado Dídimo, o gêmeo, ele se torna imagem de todos aqueles que têm dificuldade de acreditar e tendem ao isolamento. Jesus, porém, não obriga ninguém a crer, mas convida à confiança e oferece suas feridas como caminho de encontro. Somente o corpo ferido e ressuscitado pode curar o coração ferido pela incredulidade. Para os discípulos, esse corpo é a atualização de uma história de amor que não foi interrompida pela morte. A ressurreição, assim como a cruz, revela-se como supremo ato de amor e misericórdia.


A Páscoa, por sua vez, é uma celebração profundamente ligada à realidade concreta da nossa vida. A experiência da fé nos insere em um constante movimento de morte e ressurreição, marcado por quedas e recomeços. Frequentemente somos chamados a superar ilusões, abandonar esquemas falsos e atravessar os fracassos da história. É preciso morrer para o que nos fecha e ressuscitar para uma vida nova e transformada pelo Espírito. A ressurreição não é apenas um evento do passado, mas uma dinâmica que se renova diariamente em nós. Assim, o discipulado se torna uma contínua e viva experiência de fé no Ressuscitado.

 

Senhor, dá-me a graça de confiar em Ti, mesmo em meio às minhas dúvidas. Ensina-me a abrir meu coração para acolher tua presença e viver a vida nova que vem de Ti. Concede-me a força de ressuscitar contigo a cada dia. Ajuda-me a reconhecer tua presença em todos os lugares e a transmitir tua paz aos meus irmãos.

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