A páscoa de Maria
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 14 de ago. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 17 de set. de 2020
Exatamente nove dias após a festa da Transfiguração do Senhor, ocorrida a 6 de agosto, fazendo-nos ver perfeitamente a relação humano-divina do Cristo, manifestando o esplendor que refulgiria em todos os cristãos, a Igreja nos convida a contemplar o rosto de Maria assunta aos céus. Existe uma perfeita sintonia entre o mistério revelado de Cristo e o mesmo mistério acontecido em Maria.
Se na encarnação o corpo de Maria se abriu perfeitamente para habitar o Senhor Deus do céu, na assunção é o céu que se abre para assumir o corpo de Maria. De fato, deveria ser guardado da corrupção do sepulcro, o corpo que fez de Deus um homem. Em outras palavras, a corpo que deu forma humana a Deus.
Já desde muito cedo, com efeito, os cristãos já tiveram essa intuição e inquietação. A Mãe de Deus, preservada de todo o pecado, não poderia ter conhecido a corrupção da morte. Uma intuição que sendo aprofundada pelos Padres da Igreja, chega até os nossos dias, sendo o último dos dogmas proclamados a respeito de Maria. Inclusive, sendo desnecessário qualquer outro, porque nesse está contido todo o mistério do projeto de Deus e da relação entre nós e Maria.
Efetivamente, a festa de hoje é uma festa plena de humanidade. É uma festa que diz respeito a carne humana e não a perfeição humana. Por isso, é uma festa que nos convida a renunciar a constante chamada de dualidade entre corpo e alma. Não é alma de Maria que, provisoriamente, ligada ao seu corpo sobe aos céus, mas a totalidade da sua pessoa, todo o seu corpo animado e estremecido pela penetração do Espírito na encarnação, todas as suas dimensões vem totalmente assumida por Deus.
Aquela que foi habitada por Deus na terra, hoje habita em Deus totalmente. É o mesmo que acontecerá conosco, não é um privilégio especial concedido a Maria por ter gerado Deus, por ter sido preservada do pecado original ou por ter sido perfeita em vida. Não é nem mesmo um mérito alcançado. É um projeto salvífico destinado a todos nós. Foi isso que Deus nos preparou. Aqui está o essencial que a liturgia de hoje na sua sabedoria e sobriedade apresenta, preste atenção no prefácio de hoje e nas orações do dia. A Igreja reza o que acredita, é a nosso grande evidência.
Além disso, o evangelho de hoje busca sublinhar um detalhe. Maria corre apressadamente para visitar, anunciar, gerar e alegrar. Ou seja, após ter sido visitada por Deus, Maria não contempla a si mesma, corre para fazer o mesmo que Deus fez. É livre! Aquela que outrora era visitada, agora visita. Aquela que era abraçada, agora abraça. Aqui está o princípio da habitação do Senhor na vida. Todos que foram habitados pelo Senhor se inquietam e devem sair apressadamente para o anúncio até mesmo sem palavras.
Na sua chegada, presença e anúncio, a criança que ainda não nasceu, pula. Justamente, porque sua chegada traz notícia de vida e confirmação de possibilidade. Naquele ventre que estava velho e estéril tudo agora é novo. Naquela impossibilidade da natureza, Maria confirma a possibilidade do toque de Deus. Sua palavra é mudança da história. Sua chegada é encontro do novo com o velho. Sua presença é cheia de ânimo, confiança e louvor. É portadora da presença consoladora do Espírito.
Desse mesmo modo, foi a sua chegada nos céus. Esse por hora parecia não ter sido habitado pela carne humana, a não ser aquela divina-humana de Jesus. Maria leva ao céus uma novidade. Na verdade, a novidade mais preciosa da terra: a nossa carne!
Por isso, o destino de Maria é o nosso destino. A sua assunção serve de primícia para nós. Nisso está o complemento do mistério da salvação. A carne não é a prisão da alma e o corpo não é o impedimento para as maravilhas de Deus. Se na ressurreição a nossa corporeidade foi resgatada e transfigurada pelo absoluto de Deus, assim será o nosso corpo resgatado do sepulcro no tempo de Deus.
Dito de outra forma, Maria prefigura a espera final dos homens batizados e assumidos pelo mistério de Cristo. Essa é a fé católica mais pura, de qualquer modo, pouco clara e escondida. Como seriam diferentes os nossos dias, se fossem animados por esta perspectiva! Somos dos céus! Receber-nos lá faz parte da plena liberdade de Deus, ou seja, faz parte da liberdade de Deus querer-nos nos céus. Internalize essa certeza e essa promessa. Parece difícil de entender, mas não é, é muito simples. É só aprender dar espaço ao sonho de Deus aqui na terra. É o que Maria soube fazer, dar espaço ao sonho de Deus, ou melhor, soube sonhar o sonho de Deus para assim entrar na liberdade de Deus.
Então, Maria é o começo e a imagem da humanidade do futuro, sinal escatológico da esperança, consolo para o povo de Deus, aliás figura e símbolo do novo povo de Deus, ou seja, da Igreja que já é comunidade de salvação, mesmo que envolta na ambiguidade gerada pelo pecado.
Proclamar a páscoa definitiva de Maria também implica acreditar que aquela mulher que deu a luz em um estábulo de animais, que participou do exílio à causa do filho, que angustiou-se na procura do Templo, que teve o coração transpassado pela dor ao ver o seu filho maltratado e morto, que chorou no silêncio e na solidão do sepulcro, foi exaltada. Assim como o crucificado é o ressuscitado, a dolorosa é a gloriosa. Que coisa admirável! De fato, é a promessa contida na palavra: se com ele morremos, com ele viveremos; se com ele sofremos, com ele reinaremos (cf. 2 Tm 2,11-12).
Enfim, a festa de hoje é belíssima, todavia traz consigo sempre os grandes riscos da fé. Desses grandes riscos trazemos sempre o excesso de um devocionalismo plástico. Por vezes, sublinha-se as numerosas feições extraordinárias da mãe de Jesus e esquece-se do simples e ordinário projeto de Deus na sua vida, tornando-a discípula exemplar na obediência à Palavra.
Devemos recordar que Maria nos é dada como irmã na fé, como discípula do Senhor, como mãe dos discípulos. Esta é a memória que festa da Assunção quer recordar, a história de uma discípula que realmente acreditou na Palavra do seu Deus, assumiu os seus sonhos e projetos, que nos ensina a ousadia de Deus e a loucura do Absoluto. Assim, cremos que esta mulher, primeira entre os fiéis, depois de uma longa experiência de uma fé habitada pelo Mistério, foi plenamente ao Deus que a chamou. É um projeto grande, mas já descoberto no início de tudo, porque "grandes coisas fez em mim o Salvador", cantou Maria. Que nós também possamos cantar, grandes coisas pode fazer em nós, o Senhor!
Solenidade da Assunção de Nossa Senhora.




Mais que conhecimento, uma inspiração! Obrigada, Frei.