A pedagogia do perdão
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

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Entre os discursos de Jesus no Evangelho de Mateus encontramos o chamado discurso comunitário. A comunidade nascente já enfrentava suas primeiras dificuldades: alguns de seus membros cometiam erros, afastavam-se do caminho e tinham dificuldade para retomar a vida comunitária. Inseridos em uma sociedade marcada pela mentalidade farisaica e por conflitos políticos e religiosos, os discípulos precisavam aprender uma nova maneira de lidar com os conflitos.
Jesus apresenta, então, uma pedagogia de recuperação, cujo propósito não é condenar quem errou, mas ajudá-lo a reencontrar o caminho e a recuperar os vínculos com a comunidade.
A primeira atitude é pessoal e discreta: “Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo”. É significativo que Jesus use a palavra “irmão”. Quem errou não é um desconhecido, um adversário ou um inimigo, mas alguém com quem partilhamos a mesma vida e a mesma fé. É justamente essa relação que dá sentido à correção. Se a primeira tentativa não funcionar, Jesus propõe que se procure a ajuda de outro irmão ou irmã. As duas testemunhas não estão ali para acusar, julgar ou tomar partido, mas para ajudar a construir uma saída. Se ainda assim não houver mudança, a questão é levada à comunidade, que também é chamada a participar desse esforço de reconciliação.
Em todas essas etapas permanece a mesma finalidade: “ganhar o irmão”. Por isso, a expressão de Jesus sobre considerá-lo “como um pagão ou um publicano” não deve ser compreendida simplesmente como condenação ou exclusão definitiva. Ela lembra que, quando os caminhos humanos se esgotam, aquele irmão continua nas mãos de Deus. O próprio Jesus se aproximou de publicanos e de pessoas consideradas afastadas, mostrando que ninguém pode ser reduzido ao seu erro. Há situações em que a comunidade não consegue encontrar uma solução, e então precisa confiar aquela pessoa à misericórdia de Deus, reconhecendo que seu amor pode alcançar onde nossas palavras e esforços já não conseguem chegar.
Há, ainda, uma inversão importante na proposta de Jesus. Não é necessariamente quem cometeu o erro que deve dar o primeiro passo. Muitas vezes, é justamente aquele que se sentiu ferido que precisa procurar o irmão. Isso exige liberdade interior, sensibilidade e delicadeza, porque não é fácil falar sobre aquilo que nos machucou nem enfrentar o receio da reação do outro.
A correção fraterna não pretende expor, humilhar ou simplesmente fazer alguém admitir que está errado. Seu propósito é abrir um espaço de verdade, no qual o outro possa perceber o que aconteceu e encontrar uma possibilidade de mudança e reconciliação.
Por isso, corrigir o irmão é um caminho exigente. Requer lucidez, maturidade e discernimento, mas também coragem para dizer uma palavra necessária e humildade para acolher uma palavra que nos é dirigida. Quando a correção nasce apenas da lei, facilmente assumimos o lugar de juízes, dividindo as pessoas entre certas e erradas, perfeitas e imperfeitas. Todos, porém, precisamos aprender a corrigir e a deixar-nos corrigir, mantendo os olhos em Jesus e reconhecendo nossas próprias fragilidades.
A misericórdia nos educa para olhar o outro com atenção, perceber suas feridas e necessidades e não permanecer indiferentes diante de sua fraqueza.
Jesus, portanto, não imagina uma comunidade formada por pessoas perfeitas, mas por irmãos que reconhecem seus limites e aprendem a cuidar uns dos outros. A correção fraterna faz parte desse cuidado quando busca reconstruir aquilo que foi rompido e não transformar o erro do outro em motivo de fofoca, escândalo ou humilhação. O caminho começa pelo encontro pessoal e, quando necessário, envolve outras pessoas e a própria comunidade. O que está em jogo não é vencer uma discussão ou provar quem tem razão, mas recuperar relações, superar conflitos e ajudar o irmão a reencontrar seu lugar na comunidade. Assim, a correção deixa de ser uma simples cobrança e se torna uma verdadeira atitude de amor e uma pedagogia da comunhão.




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