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A passagem para a vida em abundância

  • Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
    Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Na delicadeza de sua pedagogia, Jesus recorre a imagens simples para revelar os mistérios do Reino. Entre elas, a figura do pastor e das ovelhas ocupava lugar privilegiado na experiência do povo e na memória das Escrituras. O pastor era reconhecido por sua vigilância, por sua entrega e por sua responsabilidade para com a vida do rebanho. Mas Jesus ultrapassa essa compreensão comum e revela algo decisivo: o Pastor é bom não apenas porque cuida, mas porque oferece a própria vida.

Sua bondade não se mede pelo poder de proteger, mas pela capacidade de se doar. É desse amor oblativo que nasce o discipulado e é nele que se compreende a lógica do Evangelho.

As ovelhas conhecem a voz do pastor porque vivem em intimidade com ele. Não seguem uma ordem externa, mas uma presença reconhecida. Nos caminhos abertos, nos verdes pastos ou nas longas distâncias, a voz do pastor orienta e reúne. Por isso, a escuta aparece como traço essencial do discípulo. Escutar é mais do que ouvir; é permanecer em relação, voltar continuamente para a proximidade de Cristo e deixar-se conduzir por sua Palavra. Toda conversão nasce dessa escuta.

Somente quem distingue a voz do verdadeiro Pastor pode discernir as vozes que confundem, seduzem ou aprisionam. O discipulado amadurece quando a escuta se torna forma de existência.

É nesse horizonte que Jesus apresenta outra imagem surpreendente: “Eu sou a porta”. Cristo não apenas conduz; Ele mesmo é passagem. A porta não é barreira, mas travessia. Ela une interior e exterior, permanência e envio, comunhão e missão. Por isso o Evangelho não diz que Cristo é porteiro, mas porta. Ele não vigia para impedir a passagem, não controla acessos nem restringe a liberdade. Nele, a salvação é movimento: entrar e sair, permanecer e partir, repousar e caminhar.

Em Cristo, a vida não é confinamento, mas abertura. A imagem da porta revela que a comunhão com Deus nunca diminui a liberdade humana; ao contrário, restitui-a em sua verdade mais profunda.

Por isso causa estranhamento quando o Evangelho afirma que o Bom Pastor conduz suas ovelhas para fora. Instintivamente imaginaríamos o contrário: que a bondade do pastor estaria em recolher, fechar e proteger. Mas Jesus desfaz essa imagem infantilizada do cuidado. O redil não é destino, é passagem.

O Pastor conduz para fora porque conduz para a amplidão da vida. Ele é a Porta das ovelhas, não a porta do cercado. Segui-lo é sair dos espaços estreitos do medo, das dependências e dos controles para habitar a largueza dos campos de Deus. O cuidado do Pastor não é possessivo; é libertador. Seu pastoreio não infantiliza, mas faz crescer em liberdade.

O Ressuscitado, vivo entre nós, é essa Porta aberta. Passar por Ele é atravessar tudo aquilo que bloqueia a existência e impede a plenitude da vida. Nele somos libertos das opressões visíveis e invisíveis que ferem a consciência e estreitam o coração. Somente a relação com Cristo confere profundidade e verdade a todas as demais relações que sustentam nossa existência. É Ele quem nos introduz nos amplos espaços da liberdade e não permite que nada ou ninguém nos reduza ao medo, à servidão ou à manipulação. Quanto mais nos familiarizamos com sua voz, mais reconhecemos o verdadeiro Pastor e discernimos aqueles que roubam a liberdade, enfraquecem a justiça e destroem a caridade.


Dizer que Cristo é a Porta é professar que nele toda vida pode tornar-se passagem para a plenitude. Ele nos ajuda a atravessar as portas fechadas de nossa própria existência e nos introduz na beleza de uma vida reconciliada. A Porta do Ressuscitado não nos encerra em um abrigo; abre-nos para a abundância. Entrar por essa Porta é fazer a experiência pascal de uma liberdade redimida, de uma vida ampliada e de uma beleza que nasce do Evangelho vivido. Nele, pastoreio e liberdade não se opõem, mas se pertencem. O Bom Pastor não nos conduz para a dependência, mas para a maturidade dos filhos. E essa é a vida em abundância: viver em Cristo a liberdade, a plenitude e a beleza do Reino.


Senhor, Bom Pastor e Porta da Liberdade, concedei-me a graça de escutar e reconhecer sempre a tua voz, para que meu coração permaneça fiel no caminho da verdade. Libertai-me de tudo o que aprisiona minha vida e conduzi-me à liberdade nova que brota de tua Páscoa. Fazei-me viver a abundância do teu amor, para que, sustentado por tua presença, testemunhe com alegria a beleza, a justiça e a liberdade do Evangelho.

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