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A livre entrega do Amor

  • Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
    Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
  • 28 de mar.
  • 3 min de leitura

A liturgia do Domingo da Paixão entrelaça dois sentimentos profundos e inseparáveis: a alegria ao contemplar o Senhor que entra em Jerusalém e a compaixão diante daquele que se entrega totalmente por amor. Trata-se de uma celebração simultaneamente jubilosa e dolorosa, rica em significado e densidade espiritual. Nela, recordamos a entrada triunfal de Cristo, aclamado como rei por seus discípulos, e, ao mesmo tempo, proclamamos o mistério de sua Paixão e Morte.

A cruz, centro dessa liturgia, desconstrói toda ideia de um messianismo meramente triunfal, revelando um Reino que não se impõe pela força ou pelo poder, mas se manifesta na humildade, na obediência e no amor levado até o extremo.

Todos os evangelistas narram a Paixão e a Morte de Jesus sob diferentes perspectivas, cada qual acentuando aspectos próprios de sua comunidade e de sua intenção catequética. Alguns apresentam relatos mais detalhados, outros mais sóbrios, mas todos convergem na transmissão do núcleo essencial da fé cristã. Neste ano, a liturgia nos conduz pela narrativa segundo o evangelista Mateus, cuja catequese é marcada pelo confronto progressivo entre Jesus e seus adversários. Em especial, destacam-se os escribas e fariseus, frequentemente apegados a uma observância rígida e externa da Lei, incapazes de reconhecer a novidade do Reino que se revela na pessoa de Cristo.


Em torno desse grande drama da redenção, os evangelistas colocam uma variedade de personagens que expressam a complexidade do coração humano diante do mistério de Deus. Pôncio Pilatos representa a fragilidade da autoridade que, mesmo percebendo a injustiça, cede aos cálculos políticos. Judas Iscariotes encarna a tragédia da traição que, embora seguida de arrependimento, não se abre à esperança. Pedro revela a fraqueza daquele que ama, mas que, por medo, nega o Mestre. Simão Cireneu, constrangido a ajudar, torna-se sinal de participação no caminho da cruz. Os soldados manifestam a violência brutal, enquanto as mulheres permanecem fiéis, silenciosas e firmes até o fim, testemunhando um amor que não abandona.


Festa e traição, ceia e angústia, entrega e condenação, solidariedade e violência, fé e dúvida compõem o contraste da narrativa da Paixão. É justamente nesses contrastes que os evangelistas revelam a profundidade do mistério pascal, capaz de iluminar tanto as realidades públicas quanto as experiências mais íntimas da vida humana.

Da aclamação festiva ao grito de condenação, da proximidade dos discípulos à sua dispersão, da brutalidade à delicadeza, tudo converge para a decisão firme de Cristo de permanecer fiel ao projeto do Pai. Nele, as trevas são atravessadas pela luz, a morte se abre à vida e o ódio é vencido pelo amor que não recua.

Fazer memória da entrada de Jesus em Jerusalém é, ao mesmo tempo, um convite a percorrer a nossa “Jerusalém interior”: espaço profundo onde nos encontramos conosco mesmos e reconhecemos nossas luzes e nossas sombras. O relato da Paixão não pertence apenas ao passado, mas continua a acontecer no interior de cada pessoa, nas escolhas, nos conflitos e nas decisões cotidianas.

Quando levamos a sério nossa história pessoal, percebemos como o contraste e a contingência estão sempre presentes: ora inclinados ao egoísmo, à mentira, à negação e à traição, ora elevados ao bem, ao amor, à verdade e ao desejo sincero de comunhão com Deus e com os irmãos.

É nesse campo de tensões que se situa a nossa liberdade, dom precioso que nos permite escolher o caminho que desejamos seguir. No centro dessa decisão está a autoridade de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que se deixa tocar tanto pela delicadeza do amor quanto pela dor da traição. O mesmo Senhor que acolhe o gesto da mulher que derrama o perfume - “deixai-a fazer” - permite também o gesto de Judas - “o que tens a fazer, faze-o depressa”. Em ambos os casos, Jesus se oferece sem reservas, sem mudar o rumo do seu amor. Seu projeto permanece firme e fiel até o fim; o que faz a diferença é a resposta de cada coração. Assim, entre o beijo da traição e o beijo do amor, entre permanecer ou abandonar, está a escolha que continua a dar sentido à nossa história e a revelar, em nós, o caminho que decidimos trilhar.

 

Senhor, ajuda-me a te reconhecer também nos momentos difíceis e a não buscar apenas alegrias sem compromisso. Sustenta-me quando eu for fraco, para que eu não te negue nem me afaste de ti. Ensina-me a escolher o bem, mesmo quando for mais fácil escolher o contrário. Fica comigo, Senhor, e transforma o meu coração para que eu saiba amar como Tu amas.

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