A participação da alegria
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 18 de nov. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 18 de nov. de 2023
Mateus apresenta três parábolas sobre o Reino de Deus no discurso escatológico sobre o fim dos tempos. A primeira parábola discorre sobre dez jovens que aguardam o noivo para uma festa de casamento. Algumas delas traziam consigo a lâmpada, mas não tinham óleo suficiente. Essa parábola termina com a exortação sobre a vigilância, fonte de toda a virtude humana e cristã. A segunda parábola, conhecida como parábola dos talentos, relata sobre a administração dos dons concedidos pelo dono da propriedade. Por fim, a terceira parábola fala sobre o serviço generoso a ser oferecido a todos os necessitados.
O Evangelho deste domingo amplia o significado da vigilância. Na primeira parábola havia dez jovens, entre as quais, cinco eram prudentes e cinco imprudentes. Agora, encontramos três servos. Dois servos se revelam bons e fiéis, enquanto o terceiro mal e preguiçoso. A dimensão escatológica emerge com força no julgamento do servo preguiçoso, enquanto a recompensa para os servos empreendedores é a participação da alegria de seu senhor.
É importante constatar que essa parábola não é uma exaltação, um aplauso à eficiência, uma apologia à meritocracia, mas uma chamada de atenção para o cristão morno, sem iniciativa, medroso da mudança exigida e medíocre diante da gratuita e ilimitada misericórdia de Deus.
O protagonista da parábola é um homem que deve partir para longe e confia seus bens aos seus empregados. Ele conhece as capacidades, atitudes e competências de cada servo. A partir delas, estabelece quanto deve confiar a cada um deles. A quantia partilhada é grande, mas cada servo recebe de acordo com sua capacidade e sua disposição ao serviço. É importante ressaltar que o valor pertence ao patrão e está sendo confiado ao servo para que ele cuide e, se possível, faça crescer os bens deste homem. Ele não aponta nenhuma indicação sobre como administrar os talentos. Ele prefere confiar na inteligência, na liberdade, na criatividade, na perspicácia e na sabedoria dos servos. Para além da imagem dos talentos, esse dom é a vida concedida por Deus a cada pessoa. A vida é um dom que absolutamente não deve ser desperdiçado, ignorado ou dissipado.
O comportamento diferente dos três servos é descrito pelo evangelista. Dois servos foram empreendedores e dinâmicos, enquanto o terceiro foi medroso e inseguro. Dois servos investiram os talentos recebidos, de uma forma não especificada no Evangelho, mas o resultado é que ambos dobraram os talentos.
O primeiro e o segundo servos viveram arriscando e receberam as consequências das suas atitudes. Eles não foram recompensados porque guardaram, controlaram ou vigiaram os talentos, mas porque ousaram, saíram para multiplicar e conseguiram fazer render os dons recebidos. Embora, os talentos não fossem propriedade deles, sentiram-se responsáveis pelos dons recebidos, acolheram com muita liberdade e multiplicaram com grande criatividade.
O terceiro servo enterrou o talento recebido. Por ter recebido o menor valor, tendo medo de ficar sem nada, decidiu esconder. A sua opção em enterrar aquele único talento, tirou dele a responsabilidade sobre qualquer acontecimento. Para ele, foi melhor esconder, conservar e proteger o talento, até o retorno do patrão. O medo tornou seu coração medíocre, doente e incapaz de acreditar. Ele não quis ousar, errar e, por isso, teve medo de ser julgado. Ele desejou controlar tudo, ser pleno de certeza e perdeu tudo. Se tivesse arriscado, vivido, ele poderia ter perdido e nada devolvido ao patrão. Talvez, fosse melhor ter se apresentado com as mãos vazias do que ter levado a mesma quantia recebida. Por não ter corrido riscos, ele não teve a participação da alegria do dono.
O que está em jogo é a relação entre os servos e o seu senhor, entre os homens e Deus. Depois de ter concedido a cada ser humano suas capacidades de razão e de linguagem, o dono dos talentos regressará num momento desconhecido. O dom entregue é diversificado e personalizado. Diferentes medidas foram doadas para diferentes servos. O entendimento de cada servo sobre o patrão e a compreensão de cada dom recebido são entendidos pelo modo como cada um reage diante daquilo que recebeu.
A relação que os dois primeiros servos tiveram com o patrão foi saudável, responsável e gratuita. Pelo contrário, o terceiro servo teve uma relação negativa, pois vivia na defensiva manifestando seu pensamento paralisado: “Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento no chão”.
A vida cristã é um arriscar-se continuamente. O estilo da vida cristã deve ser a ousadia e a audácia. Somente participa da alegria de Deus quem sabe oferecer os dons recebidos. Vive a santidade aquele que tem coragem de arriscar sua própria vida pelo Evangelho. Viver com medo do fim ou do castigo não é uma virtude, mas uma atitude escrupulosa que apenas revela o medo de Deus. O bem não deve ser feito por temor, mas por amor.
A responsabilidade cristã é a consciência do dom recebido e a fidelidade ao Dono dos dons. Conscientes da nossa natureza autêntica e da potencialidade que vive em nós, somos capazes de fazer emergir o melhor de nós, transformando vidas através da boa-notícia do Evangelho. A vigilância é a força da ação e a coerência do pensar, do escutar, do agir e do falar.
Há cristãos dinâmicos e empreendedores, empenhados em dar um novo rosto à Igreja, à liturgia e à pastoral. Dedicam-se apaixonadamente ao estudo da Palavra de Deus para compreender o seu significado autêntico e profundo. São generosos e ativos. Às vezes, por excesso de zelo e de paixão, cometem erros não discernindo e fazendo escolhas inadequadas. Outros cristãos, porém, são preguiçosos e temerosos de tudo e em tudo. Limitam-se a repetir monótona e tediosamente os mesmos gestos e frases. Irritam-se quando alguém propõe novas interpretações. Não questionam se as mudanças propostas são desejos do Espírito de Deus. Sentem-se seguros apenas dentro do que foi dito e feito no passado. Cada impulso em direção ao futuro, cada nova interpretação é motivo de escândalo ou de conflito. Não vibram os valores da liberdade, da fraternidade e da caridade.
Os cristãos generosos e atentos aos sinais dos tempos devem progredir adquirindo cada vez mais vitalidade. O talento da Palavra de Deus dá frutos somente quando é apreendido o seu verdadeiro significado. Quando é traduzido numa linguagem compreensível para o homem de hoje. Quando é aplicado à vida e às situações concretas da comunidade. Caso contrário, o talento será palavra morta, não produzindo nenhuma mudança, não transformando consciências e não provocando nenhuma mudança. O castigo para aqueles que se tornarem improdutivos dos talentos do Senhor será a exclusão da Sua alegria. Não será a condenação ao inferno, mas a não participação da alegria do Cristo glorioso.
Senhor, capacita-me a reconhecer que a vida é um dom que não deve ser desperdiçado, ignorado ou dissipado. Ensina-me ter um comportamento dinâmico e empreendedor com os talentos que me concedes acolhendo-os com liberdade e multiplicando-os com criatividade. Desejo ser ousado e audacioso para sempre arriscar-me a fim de participar da alegria do Cristo glorioso.
LFCM.




Bom Dia Frei, gratidão por me enviar essas palavras q me farão pensar muito sobre minhas atitudes como cristã. Paz e Bem.