A medida sem medida da misericórdia

Os rabinos ensinavam que era possível perdoar até três vezes uma ofensa. Pedro, sabendo que Jesus alargava os limites, pergunta se sete vezes seriam suficientes. O número sete já expressava uma grandeza, mas Jesus vai ainda mais longe: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Jesus não está propondo uma nova quantidade, Ele está eliminando do perdão toda possibilidade de cálculo.
O discípulo não pode estabelecer previamente quantas vezes será misericordioso. O “setenta vezes sete” significa que a misericórdia não funciona segundo a lógica da contabilidade: ela não pergunta quantas vezes o outro errou para decidir quantas vezes ainda deve ser perdoado.
É para mostrar a seriedade dessa afirmação que Jesus conta a parábola do empregado que devia ao seu patrão uma enorme fortuna. Sem condições de pagar, ele suplica e recebe o perdão de toda a dívida. Pouco depois, encontra um companheiro que lhe devia uma pequena quantia e, em vez de repetir o gesto que havia recebido, exige o pagamento e manda prendê-lo. O contraste é brutal. Ele não apenas deixou de perdoar; comportou-se como se a misericórdia que havia recebido não tivesse nenhuma consequência para sua relação com os outros.
A parábola revela, assim, uma incoerência fundamental: querer receber misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo, recusar-se a praticá-la diante do irmão.
Por isso, Jesus não coloca em oposição a justiça e a misericórdia. A correção fraterna continua sendo necessária, assim como o reconhecimento do mal e a responsabilidade por aquilo que fazemos. O problema começa quando o erro do outro passa a definir inteiramente a pessoa e a relação com ela. A misericórdia não chama o mal de bem, nem dispensa a conversão. Ela impede, porém, que a culpa seja transformada em condenação definitiva. O Evangelho propõe algo mais exigente: reconhecer o erro sem negar a pessoa, corrigir sem humilhar e estabelecer limites sem transformar o outro em seu próprio erro.
É justamente diante das incoerências do outro que o perdão se torna mais difícil e, ao mesmo tempo, mais necessário. É fácil perdoar quando percebemos arrependimento, mudança e esforço para reparar o que foi feito. A dificuldade aparece quando a pessoa repete os mesmos erros, não reconhece suas contradições ou continua agindo de maneira incoerente com aquilo que diz acreditar. Nesses casos, perdoar não significa fazer de conta que nada aconteceu. Significa não permitir que a incoerência do outro determine a nossa própria resposta. Podemos reconhecer a verdade, exigir responsabilidade e manter os limites necessários, mas sem abandonar a possibilidade de conversão. O perdão cristão não elimina a exigência da mudança; ele impede que o passado seja transformado em uma sentença definitiva.
É nesse sentido que compreendemos a oração do Pai-Nosso: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Não se trata de uma simples condição moral para obter o perdão de Deus, mas da manifestação de uma mesma lógica: quem pede misericórdia precisa estar disposto a praticá-la. A experiência cristã começa pelo reconhecimento de que também somos devedores. Não estamos diante de Deus como aqueles que têm tudo em ordem, mas como pessoas que vivem da graça e do perdão.
Por isso, o perdão ao irmão não é um gesto de superioridade, mas consequência daquilo que nós mesmos recebemos. A misericórdia que pedimos a Deus precisa encontrar expressão concreta na maneira como tratamos aqueles que nos ferem, nos decepcionam e também revelam suas próprias incoerências.
O Evangelho, portanto, desloca a pergunta de Pedro: não se trata de saber quantas vezes devemos perdoar, mas de que modo queremos viver nossas relações. A lógica da dívida calcula, cobra e encerra; a lógica do Evangelho reconhece o mal, busca a justiça, mas mantém aberta a possibilidade da conversão. Perdoar não é esquecer, aprovar ou permitir que a injustiça continue. É recusar-se a transformar o mal recebido em critério permanente para agir. Em Cristo, Deus nos mostra que a misericórdia não é ausência de justiça, mas uma justiça alargada pela graça. Não se responde simplesmente segundo o mérito ou aquilo que o outro parece merecer. O “setenta vezes sete” não é uma conta maior: é a decisão de não colocar uma medida diante do perdão e da misericórdia.




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