A escola de Jesus
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 8 de jul. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 15 de jul. de 2023
A apreciação das belezas da natureza torna a vida digna de ser vivida. A gratidão pela bondade do Criador faz com que estejamos sensíveis aos mistérios e aos vestígios de Sua presença no meio de nós. A capacidade de admiração da vida humana é dom do alto que não pode ser alcançado pelos raciocínios pessoais, nem por ideias assimiladas pelo intelecto, mas esse dom somente pode ser alcançado pela experiência e pela comunhão com Deus. A experiência desse encontro entre duas pessoas plasma a possibilidade de apreciação, de gratidão e de admiração.
Aqueles que possuem o entendimento do bem e do mal não são capazes de terem admiração por nada e vivem distantes da comunhão com Deus. Eles acreditam de que não precisam de Deus porque pensam que controlam tudo pela força da razão. Os sábios e entendidos não aceitam a revelação de um Deus humano que tenha sentimentos humanos. Para eles, um Deus sensível e humano é loucura e inaceitável. Eles têm visão própria e erudita de Deus e da religião. Eles não se abrem aos ensinamentos do Mestre Jesus. As palavras de Jesus não condenam a inteligência e nem exaltam a ignorância. Suas palavras chamam à atenção aos que se fecham às ações de Deus, aos que passam a acreditar somente em suas próprias ideias e aos que não conseguem apreciar a beleza das coisas.
O Evangelho de hoje quer nos mostrar que Deus escolhe os simples e os humildes para manifestar Sua presença, pois eles vivem desprovidos de verdades absolutas e de consolidados entendimentos. Na Bíblia, os sábios e entendidos são referidos pejorativamente. Eles professam serem devotos buscadores da sabedoria, pois acreditam ter monopólio dela. Entretanto, o que realmente acontece é que eles se cansam em vãs indagações.
Os simples alcançam a revelação divina facilmente e sem esforço, pois não teorizam e nem complicam a fé, mas a sente em suas próprias histórias. A inteligência da fé que possuem os possibilita ler os sinais de Deus na história. Eles experimentam Deus cotidianamente. Eles transformam desgraça em graça, dificuldade em esperança, desafio em espera do tempo e da vontade divina. O reconhecimento desse mistério na vida dos simples faz encher o coração de Jesus de gratidão: "Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”.
O desafio dos sábios e entendidos consiste na dificuldade de abertura ao novo. Os sábios e entendidos possuem um coração cheio de leis, de convicções pessoais e de raciocínios individuais. Num coração cheio não há espaço para a revelação de Deus trazida por Jesus. A vida daqueles que acreditam serem cheios de sabedoria e de entendimento é pesada, carregada e prisioneira. Os fardos das leis impedem-lhes de serem livres e amedronta-lhes por não quererem perder o poder. Por isso, o Pai revela suas melhores coisas aos simples e humildes. A sensibilidade deles abre espaço para o Deus de Jesus Cristo e para a boa-notícia do Evangelho.
Neste sentido, Jesus possibilita e convida para que todos vivam uma relação com Ele. A liberdade dos simples facilita a apreciação do mistério de Deus. Os sábios e entendidos, cansados por carregarem o fardo da lei e abatidos pela instrumentalização de Deus, também são chamados: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. O descanso físico e o descanso racional são aliviados pela experiência do encontro com a mansidão e com a humildade do coração de Jesus.
Não dos mestres da Lei, mas “Aprendei de mim”, disse Jesus. Na escola do coração de Jesus aprendemos a gramática da esperança, a soma os dons, a geografia da fé, a história da salvação e a física do novo movimento. A gramática do Evangelho nos faz aprender a ser humano como Deus. Participar da escola do coração de Deus é uma experiência bastante decisiva para o ser cristão no mundo de hoje, sobretudo, porque o Coração de Deus humaniza nosso coração, tornando-nos abertos e sensíveis a tudo que é divino-humano.
Sem tirar a importância da lei, Jesus propõe um outro “jugo”. Um jugo belo e vital que consiste na relação com Ele. Uma relação que torna a vida menos oprimida, mais leve e livre. É claro que toda forma de relação tem suas exigências e não seria diferente a relação com Deus. No entanto, na relação com Deus ou na observância de Sua aliança não há instrumentalização da verdade, nem abuso de poder, mas a relação com o Divino nos traz suavidade, mansidão e ternura.
A violência é um fato na vida social e religiosa. Em nome de Deus alguns tornam-se violentos assumindo para si o direito sobre a vida e sobre a morte. Em nome de um cristianismo que desconhece o verdadeiro Cristo, muitos ostentam falsas verdades. Em nome de uma moral com expressões imorais defendem o indefensável com uma inverdade de um Deus anticristão. “Matar” é um direito que alcançamos do Autor da vida? Não pode ser! Ele não nos autoriza denegrir em nome do poder, com silêncio de perversidade e com campanhas injustas. Diante dessas atitudes, presentes nos espaços eclesiais, em que a violência disfarçada de Evangelho reivindica os próprios direitos ideológicos e as próprias normas farisaicas, encontramos em Jesus a imagem do Pastor manso e humilde de coração.
O nosso entendimento sobre Deus é muito pequeno porque o nosso raciocínio de quem seja Deus é por demais grande. Esse raciocínio mata nossa humanidade, nos enche de culpa e nos obriga a excluir em nome do Deus que construímos em nossas mentes. O deus criado pelos sábios e entendidos é produto da lógica e do critério desumano, por isso ele é possuidor de mecanismos de controle. Esse deus fabricado por mãos desumanas não é e nem pode ser o Deus de Jesus Cristo e da boa-notícia do Evangelho. Ontem, hoje e amanhã Jesus desestabiliza nossa frágil ideia da imagem equivocada de Deus. Sua Palavra é mais atual do que podemos sentir ou pensar. Ela é potente nos diversos momentos da nossa história.
Senhor, ensina-me a ter um coração grato para apreciar tuas belezas, aceitar teus mistérios e admirar toda grandeza da vida humana. Ajuda-me a viver numa comunhão feita de experiências verdadeiras e não de raciocínios individuais. Educa-me a manter aberto o espaço do meu coração e a não complicar a fé teorizando por demais teus mistérios. Que eu esteja aberto ao novo. Que na escola do teu coração eu possa aprender a conjugar os verbos da esperança e a somar os dons da partilha.
LFCM.




Olá Frei gratidão por me enviar essas palavras q me ajudaram a crescer na fé. Tenho muito q aprender sobre o amor de Deus. Paz e Bem. 🙏🏾🙏🏿🙏🏽