A dinâmica do tentador
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 25 de fev. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 12 de abr. de 2023
No ato da criação, antes de criar o homem, Deus preparou-lhe um lugar de vida e de satisfação. Além de doar-lhe a vida, estabeleceu com ele uma profunda amizade. No jardim do Éden, colocou as melhores coisas para que o homem pudesse viver bem e responder de modo positivo aos dons recebidos. Entretanto, a serpente retirou a bondade generosa de Deus e colocou a atenção do homem numa única árvore, aquela da qual, não se podia comer. A enganosa tentação que experimentamos na relação com Deus e nas relações quotidianas é a mesma do Éden: desviar nossa atenção das coisas boas criadas por Deus e dirigir nosso olhar para nós mesmos.
Dispersar a relação é a dinâmica do tentador. Além de tirar o foco e a relação com Deus, a tentação arranca da nossa boca palavra de autoridade e de força. No diálogo com o tentador, mais interno do que externo, alimentamos pensamentos confusos e dialogamos com a vontade excessiva que há dentro de nós. Deus disse apenas para não comer da árvore. Entretanto, no diálogo com a tentação, a mulher disse para não comer e não tocar na árvore. No diálogo, a mulher confundiu a orientação de Deus, acrescentou algo que Ele não havia dito e, então, perdeu a autoridade de confrontar-se com as forças do mal. Sem essas possibilidades, restou apenas a morte. Ao desobedecer, o homem dispersou a relação com Deus, percebeu sua fragilidade diante da vida dada por Deus, entendeu seu próprio limite e descobriu sua nudez.
A transgressão de uma só pessoa levou uma multidão humana à morte. Porém, de maneira superior, a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos (Rm 5,15). Se o primeiro homem não foi capaz de sustentar a amizade com Deus, o filho primogênito devolveu-nos a relação com Criador. Ele venceu o tentador, o pecado e a morte para dar-nos autoridade de sermos vitoriosos. O Filho não perdeu o foco da bondade generosa de Deus, conseguindo vencer o mal e ir até o fim ao bem começado. Ele não se convenceu com as sugestões e não se enganou com as condições do maligno.
O diabo lançou para Jesus três propostas tentadoras: obedecer à fome, ter o mundo em suas próprias mãos e controlar o próprio Deus. O inimigo tentou com que Jesus usasse de seus privilégios, em particular, daquele de ser o Filho de Deus. O Cristo superando as três tentações mostrou que para ser Filho de Deus é necessário dizer não à fome, renunciar o “governo do mundo” e não colocar o próprio Deus à prova. Ainda assim, o diabo tentou enganar Jesus com três condições: “se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”; “se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”; “se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo!”. Ele tentou fazer com que Jesus duvidasse da imaginação salvífica do Pai através da avidez da posse, da glória humana e da instrumentalização de Deus. Ele ofereceu a Jesus um caminho fácil: melhor triunfar pelo poder do que morrer numa cruz. Jesus não cedeu à tentação do poder, não se deixou levar pelo delírio da onipotência e não quis o fascínio perverso de “tudo” controlar.
O Cristo manteve-se firme e decidido. A forma com que se relacionou com as tentações construiu sua identidade. Seu compromisso gerou palavra e escolha, capacidade de dizer sim ou não e de tomar decisões por si mesmo. Neste sentido, Ele refutou todo triunfalismo, todo o espetáculo e toda instrumentalização de Deus. Escolheu o contrário da proposta tentadora: a autoridade da Palavra e a liberdade de compromissos mundanos.
A tentação é uma distração biográfica. Responder às tentações é perder a autonomia e a identidade. A identidade perdida tira a dignidade e a nobre visão das coisas criadas por Deus. A distração biográfica coloca-nos diante da ânsia de ter e do tédio de possuir. Por isso, a quaresma é um tempo necessário que nos ajuda a crer na possibilidade de transformação e nos ajuda a voltar a ver a bondade generosa de Deus. É um tempo que nos empurra a sair da indignidade para reconhecer o dom incondicional. A experiência quaresmal nos resgata da morte do pecado e revitaliza o nosso interior a fim de acolhermos a relação pascal da Nova Aliança.
Os objetivos do itinerário quaresmal são: não dispersarmos, voltarmos e mantermo-nos firmes e decidirmos pela relação com o Criador. Para alguns a prática necessária é voltar e retomar à vida cristã; para outros, não dispersar a amizade com Deus; outros ainda, manter a decisão firme de permanecer. O exercício quaresmal, dependendo da estrada percorrida e do caminho alcançado, serve para identificar a necessidade de cada ser individual: não dispersar, manter-se ou voltar.
O pedido à conversão quaresmal tem como último fim: a amizade com Deus, o entendimento da autoridade da sua Palavra, o resgate da relação filial e a reconstrução da história salvífica. O fazer penitência não é uma mortificação, mas uma vivificação do Espírito e do seu santo modo de operar. É justamente nessa perspectiva que começa o Evangelho deste domingo: “o Espírito levou Jesus para o deserto”. A quaresma é um movimento do Espírito. É Ele quem revitaliza nossa existência. O deserto não é uma opção ou uma iniciativa pessoal, mas é desejo do Espírito que faz Jesus acolher esse movimento interior empurrando-O a silenciar, a encontrar Deus e a refazer o plano de salvação.
A motivação quaresmal é motivação pascal na qual recordamos que Cristo venceu a morte, destruiu o pecado e deu-nos vida com sua própria vida. A melhor maneira de entender o percurso quaresmal é à luz da Páscoa. Reduzir a experiência quaresmal a uma mera prática ascética vivenciada apenas em certas épocas do ano é fazer dessa experiência tradição, hábito e convenção religiosa social. Esses quarenta dias devem servir para treinarmos nosso “Espírito” a ser mais silencioso, a levar mais a sério a oração, a dominar apetites desmedidos-compulsivos e a enxergar a “fome” do irmão que vive ao nosso lado. Esse treinamento deve estar destinado ao encontro com Jesus morto, sepultado e ressuscitado nos ensinando a viver com e como o Ressuscitado.
Senhor, o modo como venceste as tentações anima meu percurso de fé e de confiança na tua promessa. Não permita que a minha relação contigo seja dispersa ou distraída. Ensina-me possuir a autoridade da Palavra, saber escolher e desejar o projeto de Deus. Educa-me a renunciar à tentação do poder, a não me deixar levar pelo delírio da onipotência e pelo fascínio perverso de “tudo” controlar. Revitaliza meu interior para que eu consiga acolher o dom pascal vendo tua bondade generosa em minha vida.
LFCM.




BomDia Frei!!! Gratidão por me enviar palavras de esclarecimentos do valor da quaresma para nós. Quero sempre estar perto do Senhor em todos os momentos da minha vida, para assim estar perto do meu próximo. Paz e Bem.