A densidade simbólica do coração de Deus
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 18 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Atualizado: 20 de set. de 2020
A solenidade de hoje possui uma densidade evangélica, mística, pascal, simbólica e apostólica. À primeira vista gostaria de nomeá-la como a solenidade do humaníssimo coração de Jesus. Sim, o coração é a prova da vida que o homem tem e Deus, ao mostrar o seu coração com formato humano, mostra a sua total humanidade.
Justamente, por isso, a inteligência ritual dessa festa nos convida a um entendimento consistente e denso da centralidade do amor de Deus para não “adocicar” devocionalmente essa festa.
A própria pessoa de Jesus é a revelação desse amor de Deus. Um amor que tem o fogo ardente de uma paixão. É esse amor que revela a história de Deus na nossa história. Então, mais do que uma expressão poética e devota, contemplar o coração transpassado de Jesus constitui uma verdadeira chave hermenêutica.
É como se Jesus cantasse para nós, “tenho tanto para te falar, mas com palavras não sei dizer”, portanto pega o meu coração! Nesse gesto revela-se assim o desejo totalmente corpóreo e palpável do amor de Deus. Plenitude da gratuidade e da liberdade.
A propósito disso que foi dito, faço uma pequena observação. Inclusive, algumas vezes já partilhada em homilias. De tantas imagens representativas do coração de Jesus, algumas bonitas, outras feias, as vezes por demais divinizadas, como dito, “adocicadas”, não gosto tanto daquela que Jesus aponta o dedo para o seu próprio e nem aquela que levanta os dedinhos para confirmar a sua divina-humanidade, quase que nos obrigando a uma profissão de fé, mas gosto de uma mais direta que ele toma o coração nas suas mãos, como que se arrancasse do peito, e faz o gesto de dar: toma, é teu! A iniciativa é sempre dele. É apenas um gosto pessoal, bom esclarecer, nada dogmatizado.
Por outro lado, a densidade dessa festa, do coração de Deus, nos faz contemplar e experimentar o mistério do Filho do Homem em quase todos os seus aspectos e formas: coração do verbo encarnado, coração do bom pastor, coração eucarístico, coração humano-divino, coração transpassado, coração de onde nasce a vida da Igreja e os sacramentos, coração do filho amado que dá o Espírito. Assim, o coração do menino do presépio tem o mesmo som que o coração do homem justo suspenso na cruz. Sugerimos, assim, que contemplar o coração de Jesus, símbolo real, em todos os seus significados é um ato místico. No melhor entendimento da palavra mística, ou seja, aquela qualidade extraordinária que não se distancia do real.
Além do mais, entrar num caminho evangélico significa também entrar na escola do coração de Jesus. Essa escola mostra o caminho de fundação do Reino de Deus, revela o segredo messiânico, a ternura da encarnação e da misericórdia, faz com que o discípulo seja aquele capaz de encontrar repouso no coração do mestre.
Por isso, entrar na escola do coração de Deus é uma experiência bastante decisiva para o ser cristão no mundo de hoje, também porque o Coração de Deus humaniza nosso coração, tornando-o mais aberto e sensível a tudo o que é humano. Então, o coração de Jesus é o coração de Deus no mundo e é nesse coração que Ele carrega os nossos cansaços, desilusões e fragilidades.
Peçamos que nesta solenidade, o formato e a largura desse coração sirva para a nossa vida quotidiana e para o caminho de reforma que a Igreja precisa fazer nos próximos anos.





Maravilhoso texto, Frei! Também gostei muito do texto de hoje sobre o medo: uma frase que repito quase cotidianamente pra mim mesma "Não temas." No entanto, este texto é mais denso, como você mesmo cita na primeira frase. Sempre foi misteriosa a imagem de Jesus com o 'coração pra fora". A minha criança tinha até certo medo. Seu texto foi uma aula. Obrigada
Você colocou Jesus cantando Roberto Carlos, eu vou responder a Ele, cantando Cidade Negra:
“Amor igual ao teu
Eu nunca mais terei
Amor que eu nunca vi igual
Que eu nunca mais verei
Amor que não se pede
Amor que não se mede
Que não se repete... Amoooor!”