A conversão dos ouvidos
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

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A Quaresma desvela, pelo reconhecimento da permanente necessidade de conversão, o chamado a novas práticas, razões e intenções, conduzindo-nos ao essencial da fé. Antes de iniciar sua missão salvífica, Cristo é levado pelo Espírito ao deserto, onde ordena sua relação com os alimentos, com o poder e com o próprio Deus. Se o primeiro Adão, no Livro do Gênesis, sucumbiu ao diálogo com a serpente, o novo Adão vence o tentador, não apenas por si, mas por todos nós.
Sua vitória inaugura um caminho de liberdade e confiança. Com Ele aprendemos a lidar com a fome e com os afetos que perturbam o interior, a discernir o fascínio enganador do poder e a vigiar o coração para não instrumentalizar Deus segundo nossos interesses.
Após anunciar a paixão, Jesus sobe à montanha para rezar, levando consigo Pedro, Tiago e João, não por privilégios, mas porque eram os mais impulsivos e influentes do grupo. A Simão, chamado Pedro, dirigira palavras severas; a Tiago e João dera o nome de “Boanerges”, filhos do trovão, revelando seu temperamento ardoroso. É diante desses corações em processo de purificação que o Senhor se transfigura, manifestando a glória escondida sob a humanidade. Como narra o Evangelho, seu rosto resplandece como o sol e suas vestes tornam-se brancas como a luz. Os discípulos contemplam a antecipação da vitória pascal. Só mais tarde compreenderiam plenamente o sentido daquela visão.
O rosto transfigurado e as vestes luminosas revelam a beleza do Filho plenamente unido ao Pai, cuja oração o conduz à profunda consonância com o desígnio divino. Na escuta da voz celeste, Jesus consente livremente ao caminho que passa pela cruz. Não se trata de derrota, mas de entrega que culmina na ressurreição e na manifestação suprema do amor. A luz que emana de seu rosto é sinal dessa comunhão perfeita.
O mistério de Deus sempre nos ultrapassa e nos desinstala. Contudo, quando acolhida, sua voz desperta forças adormecidas e restaura nossa dignidade filial.
“Escutai-o”, proclama o Pai no alto do monte da Transfiguração. A escuta é exigente, porque Deus frequentemente se manifesta na discrição do silêncio e na profundidade do coração. Escutar é mais do que perceber palavras; é inclinar-se interiormente, acolher o chamado e reconhecer-se interpelado por uma Presença.
A fé nasce da escuta e amadurece na obediência confiante, que transforma a Palavra ouvida em vida concreta. O verdadeiro discípulo aprende primeiro a ouvir, para depois falar e agir segundo o querer divino.
No segundo domingo da Quaresma, abre-se espiritualmente o ouvido para aprendermos a escutar autenticamente a Palavra de Deus. Não basta acumular conteúdos religiosos ou repetir muitas orações e súplicas; é preciso acolher a Voz que corrige, consola e recria, permitindo que ela modele pensamentos, purifique desejos e oriente escolhas. Nossa transfiguração começa quando deixamos de absolutizar medos e ansiedades e colocamos Deus acima de todas as vozes.
O passo decisivo da conversão é aprender a ouvir Jesus com disponibilidade e confiança. Transfigurar-se é apaixonar-se continuamente pela voz de um Deus que anuncia perdão, paz, libertação e vida nova.
Os dois primeiros domingos da Quaresma apresentam, portanto, dois espaços simbólicos complementares: o deserto e o monte. No deserto, somos conduzidos à solidão, ao confronto interior e à necessária purificação do coração. No monte Tabor, cenário da Transfiguração, somos introduzidos na comunhão com o projeto do Pai e confirmados na esperança. O primeiro nos prova; o segundo nos ilumina. Não são caminhos opostos, mas um único itinerário espiritual que une combate e contemplação. Ora atravessamos o deserto, ora subimos ao monte, sustentados pela promessa que dá sentido à nossa missão.
Senhor, abre meus ouvidos para escutar tua voz no silêncio do coração. Dá-me a graça de confiar em tua Palavra e de seguir teus caminhos com fidelidade. Transfigura meus medos em esperançae faz de minha vida um reflexo do teu amor.




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