A conversão dos olhos
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- há 1 dia
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O personagem central da narrativa é um homem cego de nascença. O olhar de Jesus contrasta profundamente com o olhar dos discípulos: enquanto estes veem apenas um problema ou um caso a ser explicado, Jesus vê antes de tudo uma pessoa. Na mentalidade deles estava presente a ideia de que toda doença era consequência do pecado e sinal da ira de Deus. Por isso, mesmo caminhando com o Mestre, ainda não conseguiam reconhecer plenamente o rosto misericordioso do Pai.
Jesus, porém, rompe essa lógica estreita e revela que Deus não olha o ser humano a partir da culpa, mas a partir de sua dignidade e da possibilidade de uma vida nova.
Todo o relato possui uma profunda dimensão simbólica, marcada pelo contraste entre escuridão e luz. Na tradição bíblica, a escuridão representa o poder do mal, da morte e da perdição, enquanto a luz expressa a orientação para Deus, para a verdade e para a escolha do bem e da vida. Quando a luz resplandece nas trevas, manifesta-se a ação salvadora de Deus que irrompe na história humana para libertar e para iluminar.
A experiência da salvação é, portanto, uma passagem das trevas para a luz, na qual o ser humano, tocado pela graça, começa a enxergar a realidade com novos olhos e a caminhar na direção da vida plena.
A cura do cego acontece no contexto da Festa das Tendas, celebração marcada pela alegria, pela presença simbólica da água e pela abundância de luzes, especialmente ao redor da Piscina de Siloé. Nesse ambiente festivo, Jesus proclama: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).
O gesto de fazer lama com a saliva e colocá-la nos olhos do cego recorda o gesto criador de Deus que, do pó da terra, formou o ser humano e nele soprou o hálito da vida. Mais do que devolver a visão física, Jesus realiza uma nova criação: abre os olhos daquele homem para a luz da vida fazendo-o nascer novamente para Deus.
Jesus também não se detém em discutir teorias sobre a origem da cegueira nem em procurar culpados. Ao afirmar que nem o cego e seus pais haviam pecado, revela que a doença não é castigo divino, mas ocasião para que as obras de Deus se manifestem. No simbolismo do Evangelho de João, a cegueira representa a condição de todo ser humano que ainda não conhece a luz de Deus. Depois de iluminado, aquele homem já não é o mesmo: deixa de ser o mendigo marginalizado e passa a ver o mundo com um olhar novo. Essa transformação, porém, provoca incompreensão e rejeição; seus pais se afastam e os líderes religiosos o expulsam da sinagoga.
Quem encontra a luz de Cristo não cabe nos antigos esquemas e começa a viver segundo a liberdade dos filhos de Deus.
O cego, inicialmente, nem sequer sabia que fora Jesus quem o havia curado. Apenas narrava o que lhe acontecera: “Aquele homem chamado Jesus fez lama, colocou-a nos meus olhos e disse-me: ‘Vai a Siloé e lava-te’. Então fui, lavei-me e comecei a ver”. Ao ser perguntado onde Jesus estava, respondia que não sabia, mas guardava uma certeza incontestável: “Eu era cego e agora vejo”. Aos poucos, ele percorre um verdadeiro caminho de fé. No início, Jesus é apenas um homem; depois passa a reconhecê-lo como profeta; mais tarde, como alguém que vem de Deus; e, por fim, encontra-se com Ele e o reconhece como Senhor. Assim, a luz recebida se transforma em fé madura e abre o coração para uma relação viva com Cristo.
Também nós somos convidados a percorrer esse caminho de iluminação e a converter os nossos olhos. Crer é aprender a ver não apenas ver Jesus, mas olhar a realidade com os olhos de Jesus. O olhar precisa ser purificado da pressa, do domínio e da distração, para reconhecer na vida os sinais discretos da presença de Deus. Permanecemos cegos quando nos fechamos em mentalidades, critérios e ideologias distantes do Evangelho, ou quando cedemos ao fanatismo, à intolerância e à indiferença. A fé, porém, ilumina até aquilo que parece obscuro e oferece um olhar transfigurado sobre a vida. Por isso, não basta receber a luz de Cristo, é preciso tornar-se luz, também, para os outros, vivendo segundo os valores de Deus e irradiando, no cotidiano, a claridade da vida nova.
Senhor, abre os meus olhos e cura a minha cegueira interior, libertando-me das mentalidades, dos julgamentos e das atitudes que me afastam do teu Evangelho. Fortalece a minha fé, para que, como o cego curado, eu possa caminhar contigo e reconhecer-te cada vez mais como meu Senhor. Faz de mim luz para os outros, para que, iluminado por ti, eu leve esperança, verdade e vida nova a todos. Amém.




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