A conversão da sede
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- há 2 dias
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Após o confronto com o demônio no deserto e a experiência de íntima comunhão com o Pai no monte da Transfiguração, a inteligência litúrgica do tempo da Quaresma nos conduz, nos próximos domingos, a contemplar encontros profundamente simbólicos que preparam o caminho para as celebrações pascais. O primeiro deles é o encontro de Jesus com a mulher samaritana.
O pedido “dá-me de beber”, dirigido à mulher da Samaria, antecipa o clamor pronunciado por Jesus na cruz: “tenho sede”.
A passagem de Jesus pela Samaria possui um significado teológico, pois não corresponde ao percurso geográfico habitual de travessia entre a Judeia e a Galileia. No relato do evangelista João, cada detalhe é apresentado com profundo valor simbólico e espiritual. O horário da travessia, o calor do dia, o cansaço de Jesus, bem como a fome e a sede que Ele manifesta, revelam sua verdadeira humanidade. A menção ao poço de Jacó recorda a história e as promessas feitas ao povo de Israel. Esses elementos revelam um encontro que ultrapassa a simples casualidade. O cenário preparado pelo evangelista conduz progressivamente à revelação de um mistério mais profundo.
É nesse contexto, marcado pela humanidade de Jesus, que aparece uma mulher que não gozava de boa reputação. Por isso, dirige-se ao poço em um horário incomum, evitando o encontro com outras pessoas e o peso do julgamento social. Contudo, ela é surpreendida por aquele Homem sentado à beira do poço, que lhe dirige um pedido inesperado: “dá-me de beber”. Ao ouvir essas palavras vindas da boca de um judeu, a mulher fica admirada. Segundo as divisões e preconceitos do tempo, um judeu não deveria dirigir a palavra a uma samaritana. Os samaritanos e, de modo particular, uma mulher samaritana, só podiam esperar desprezo por parte de um judeu.
Jesus, porém, conhecedor dos corações, percebe que aquela mulher estava marcada por uma história de amores fracassados e por uma profunda sede interior. Sem compreender plenamente a razão de sua inquietação, ela havia procurado, em muitos lugares e em diversas relações, saciar sua sede de amor. A imperfeição afetiva da samaritana - que tivera cinco maridos e vivia com um homem que não era seu marido - revela, na verdade, o desejo profundo de ser amada.
À beira do poço de Jacó, lugar que na tradição bíblica evoca encontros e alianças matrimoniais, encontram-se dois sedentos: Jesus e aquela mulher. Ali, a sede de Cristo encontra a sede do coração humano.
O encontro com Jesus oferece à samaritana a possibilidade de descobrir a plenitude do amor: sentir-se respeitada, acolhida e profundamente compreendida em meio ao seu contexto de exclusão. Ao encontrar a perfeição desse amor, a mulher deixa o seu cântaro aos pés de Jesus. Nesse gesto simbólico, abandona também os desequilíbrios afetivos e o peso das dores de sua história, que por tanto tempo carregara.
Reconciliada consigo mesma, passa a compreender a verdadeira sede que habitava seu coração. Ao correr de volta à cidade, leva consigo um único desejo: anunciar que foi amada, ouvida, compreendida e perdoada.
A samaritana nos ajuda a reconhecer que todo desejo humano aponta para uma plenitude maior. Ao recuperar o sabor do essencial, libertamo-nos do excesso que dispersa o coração e redescobrimos nossa dependência vital de Deus, fonte que sacia toda sede e dá sentido a toda busca. Neste tempo de Quaresma, somos convidados a converter o nosso “paladar” para discernir onde buscamos saciar nossas sedes e desejos. Sem essa conversão, corremos o risco de nos tornar consumidores inquietos de um amor incapaz de satisfazer o coração. O Evangelho recorda que a fome e a sede humanas revelam um desejo mais profundo: o desejo do próprio Deus. Ele não se possui como um objeto, mas se experimenta como presença viva que transforma o interior e devolve ao coração o gosto de amar e ser amado.
Senhor, concedei-me a graça de beber da tua fonte, para que meu coração seja renovado e minha vida se torne testemunho de que sou amado, perdoado e reconciliado por vós. Dai-me um coração simples e vigilante, capaz de reconhecer a verdadeira sede que habita em mim e de buscar a água viva que sacia e renova toda a minha vida.




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