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A conversão da vida

  • Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
    Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
  • 22 de mar.
  • 4 min de leitura

As conversões dos sentidos, ao longo do itinerário quaresmal, têm como finalidade purificar de nossa existência tudo aquilo que traz sinais de morte, para que possamos contemplar, com maior profundidade, a vitória de Jesus Cristo em nossas vidas. Trata-se de um caminho espiritual que conduz à vida plena, mediante a transformação interior. A Quaresma, assim, torna-se um tempo privilegiado de purificação e de reencontro com o essencial. Nela, somos chamados a reconhecer nossas sombras e a nos abrir à luz de Deus.

É um itinerário que nos conduz da morte à vida, da cegueira à visão, da sede à saciedade, da surdez à escuta e da instrumentalização de todas as coisas a uma relação mais humana, livre e saudável com a realidade.

A força de Cristo, segundo o evangelista João, manifesta-se como poder que vence a morte em todos aqueles que dele se aproximam, oferecendo-lhes a verdadeira vida, a renovação da fé e a esperança de uma nova ressurreição. Na casa de seus amigos Lázaro, Marta e Maria de Betânia, Jesus encontrava descanso, acolhida e atenção. Ao receber a notícia da morte de Lázaro e diante da incompreensão de seus discípulos, dirige-se novamente à casa dos amigos. Para Ele, a morte do amigo torna-se ocasião para a manifestação da glória de Deus. Mais ainda, retorna ao lugar onde corria risco de condenação, movido pela dor e pelo sofrimento daqueles que amava. Com coragem, apresenta-se diante das autoridades e dos judeus, mesmo consciente de que tal gesto poderia precipitar sua sentença final.

A coragem da abertura do sepulcro, após quatro dias, e a ressurreição de Lázaro revelam a íntima relação entre o Pai e o Filho. Manifestam, assim, o poder divino que vence a morte e comunica a vida.

Ao saber que Jesus Cristo havia chegado, Marta foi ao seu encontro e professou: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido”. Sua fé a levava a reconhecer que onde Jesus está, a morte não prevalece, pois o amor e a amizade por Ele são mais fortes que toda morte. No entanto, diante do túmulo, sua atitude revela um caminho ainda incompleto de conversão. Marta conhecia as verdades sobre Deus, repetindo diversas vezes “eu sei”, mas sua fé permanecia no nível do conhecimento. Ao ouvir a ordem de retirar a pedra, hesitou, temendo o mau cheiro do corpo em decomposição. Sua fé, ainda marcada pela lógica humana, precisava ser iluminada pela confiança no poder vivificante de Cristo. Trata-se de uma passagem do saber para o crer.


Maria de Betânia, a outra irmã, parecia aprisionada em uma espécie de morte interior, consumida pela dor e pelo isolamento após a perda do irmão. Foi necessário chamá-la: “O Mestre está aí e te chama”, e, ao ouvir isso, levantou-se prontamente para ir ao encontro de Jesus. Seu choro profundo comoveu o Senhor, revelando o ambiente de morte que havia tomado conta daquela casa. Todos, de algum modo, estavam marcados pela morte: Marta, na limitação de sua fé; Maria, no desespero e solidão; e Lázaro, no sepulcro.

Depois de iluminar a fé de Marta, o chamado de Jesus fez Maria sair do “sepulcro” interior em que se encontrava. Diante de tão grande amor por aquela família, o próprio Jesus se comoveu profundamente e chorou. Sim, Jesus chorou! Seu pranto revela a profundidade de seu amor.

Na narrativa, não contemplamos apenas a morte física de Lázaro, mas também a morte espiritual e a ausência de esperança que habitavam o coração dos discípulos, das irmãs e da multidão. Torna-se necessário, portanto, que todos saiam de seus sepulcros interiores, despertando os sentimentos adormecidos e abrindo-se a um caminho de conversão. O texto revela a pedagogia de Jesus, que conduz, com paciência, da morte à vida, restaurando a fé, o amor e a esperança. O sepulcro e a pedra simbolizam as situações que nos aprisionam e nos fazem perder o ânimo diante da vida.

Muitas vezes, o desespero e as dificuldades constroem em nós verdadeiras prisões que sufocam a fé. Contudo, somente o encontro com Cristo, que é a Vida, pode remover essas pedras. Ele nos liberta de nossos fechamentos interiores e nos conduz à plenitude da vida.

Todos podemos nos reconhecer na situação de Lázaro, cujo nome significa “Deus ajuda”: somos aqueles amados por Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, marcados por nossas enfermidades interiores. O peso do cansaço e das dificuldades muitas vezes se assemelha à pedra que fecha o sepulcro, impedindo-nos de viver plenamente. Somente a voz de Jesus tem autoridade para remover essas pedras, despertando em nós forças de vida que desconhecíamos e reconduzindo-nos à nossa identidade mais profunda. O Seu chamado “sai para fora” é um convite a abandonar tudo aquilo que diminui nossa existência: preconceitos, egoísmos, insatisfações e prisões interiores. Ainda hoje, Ele nos diz: “tirai a pedra”, recordando-nos que fomos criados para a vida plena. Contudo, esse caminho exige nossa resposta corajosa de levantar e caminhar. Como Lázaro, muitas vezes ainda estamos atados e precisamos da ajuda da comunidade, pois amar é também libertar o outro para a vida.

 

 

Senhor, purifica meu coração de tudo o que me afasta de Ti. Dá-me uma fé viva, que me faça confiar verdadeiramente em tua presença. Liberta-me das pedras que me prendem e dá-me coragem para recomeçar. Ensina-me a amar e a levar vida e esperança aos outros. Converte a minha vida para que eu seja sinal da tua glória e manifestação viva do teu amor.

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