A ação salvadora
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- 17 de jun. de 2023
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O olhar de Jesus atingiu toda multidão que estava ao seu redor. Ao ver todo aquele povo, Ele percebeu o abatimento, o cansaço, a desmotivação e a desorientação. Sua capacidade de olhar fez tremer a compaixão do seu coração e fez com que Ele pudesse pensar uma comunidade que chegasse a todos os cantos da terra. Ao tomar a consciência de que, mesmo sendo Deus, não viveria sozinho, pois precisaria da força e da coragem de outras pessoas, chamou os discípulos.
A compaixão foi a primeira ação de Jesus no meio da multidão e antes do chamado dos seus discípulos. Não foi o poder, a majestade, o domínio ou o senhorio, mas a compaixão. Ele não veio para impor e dominar o ser humano. Ele se aproximava no intuito de tornar a vida digna de ser vivida.
Em sua vida pública, Jesus deixou transparecer o rosto compassivo do Pai, sobretudo, com os vitimados pela exclusão. A imagem do Deus revelado por Ele não estava à margem do sofrimento humano. Por isso, Jesus é a primeira testemunha da compaixão do Pai.
Ao falar da compaixão, os evangelistas se referiam a algo profundo e humano. A compaixão que Jesus sentia era obviamente diferente dos sentimentos superficiais ou da simpatia pela situação do outro. A compaixão por ser tão humana é demais divina. Desse modo, Jesus revelava o sentimento mais nobre e profundo unindo o humano ao divino. A compaixão é a força divina que move a história para um futuro mais humano. A compaixão é o princípio de humanidade. Sem ela o seguimento a Jesus é normativo e burocrático, marcado pela indiferença, pelo fanatismo e pela dureza de coração.
Expressando sua compaixão, Jesus chamou seus discípulos pelo nome. Foi no meio de uma multidão desnorteada que Jesus os chamou transformando, através de dois gestos, a massa anônima num povo reconhecido pelo nome e confiado por uma tarefa. Chamar pelo nome significa reconhecer, tirar do anonimato, tornar importante, trazer de volta à vida. A identidade de cada um, fala de uma história, conta um passado e revela algumas características. Os nomes chamados revelavam as diferenças entre as pessoas, entretanto, os diferentes foram chamados para caminharem juntos e unirem-se vivendo uma nova realidade.
Os doze discípulos representavam todo o povo de Deus. Havia muita diversidade entre eles. Não somente a diferença era desafiante, mas as fragilidades. Jesus escolheu no meio de uma multidão os mais problemáticos e os mais difíceis. Entre todos, Pedro era o mais frágil. Seu irmão André era um pescador desconhecido. João e Thiago eram tão ignorantes que ficaram conhecidos como “filhos do trovão”. Felipe era um grego e Bartolomeu um hebreu. Tomé era um desconfiado. Mateus, um cobrador de impostos. Simão, um Zelota. E Judas, o Iscariotes, aquele de quem sabemos o fim. No meio dos primeiros discípulos do Mestre, eram claras e expressivas a contradição e a diversidade.
Jesus quis transformar a expressão da multidão dando-lhe uma missão. Cada discípulo chamado pelo nome recebeu tarefa específica. O sentido da vida e da vocação foi revelado não somente no chamado, mas na missão de cada especificidade. Há uma diferença notável entre o comportamento de Jesus e o dos rabinos de seu tempo. Os rabinos cercavam-se de discípulos para que pudessem ser honrados, servidos e reconhecidos. Ao contrário, Jesus chama os seus discípulos para um serviço amplo e não para torná-Lo conhecido. Para cada um, o Mestre traz uma missão: pregar, ensinar, curar os doentes, ressuscitar os mortos, expulsar os demônios. Jesus transmite aos seus discípulos a mesma missão que lhe fora confiada. Uma vida sem missão torna-se inútil e sem sentido.
A missão consiste no manifestar a compaixão e a autoridade de Jesus no meio das pessoas, repetindo suas palavras e seus gestos. A autoridade que Jesus confere não é sobre as pessoas, mas sobre o mal. É o prodigioso poder da sua Palavra que erradica o mal e cria um mundo novo.
A autoridade dada por Jesus aos discípulos não é um exercício de coerção, muito menos de repressão, mas de libertação. A tarefa principal é libertar toda a limitação humana. Dessa maneira, deixando-se guiar pela compaixão, os seguidores de Jesus jamais podem ser cumplices do ódio, do sofrimento humano e de qualquer forma de prisão desumana.
Os cristãos são chamados a empenhar todas as suas energias para tornar Jesus presente no mundo. Somos chamados a encarnar hoje aquilo que Jesus faria se estivesse vivendo nossas realidades. Essa messe é grandiosa e desafiadora. Às vezes, a pequenez do nosso espírito não consegue corresponder com generosidade a missão que nos foi dada.
Nosso culto agradável a Deus pode ser manifestado quando dizemos palavras de consolação, quando curamos as pessoas dos sentimentos de tristeza e da raiva ou de pensamentos negativos, quando ajudamos os desanimados a encontrar alegria para viver, quando auxiliamos na reconstrução de uma nova história e quando por meio da oração e do perdão afastamos o mal de nossos corações. Somente pela dinâmica do cuidar do próximo e de nós mesmos é que encontramos o sentido da nossa existência.
A ação salvadora de Jesus começa na maneira do seu olhar e no modo da sua compaixão. Para olhar com os olhos do Mestre é necessário parar, deixar de lado as ansiedades temporais e as correrias momentâneas. Olhar como Jesus olhou é o caminho que efetiva nossa vocação de continuadores do Reino. Para sentir como Jesus é preciso ter o coração disponível, desocupado e livre. Essa compaixão não era simplesmente um sentimento moral ou passageiro, mas uma forma de vida gratuita que cuidava do próximo colocando-se a caminho, abrindo-lhe as mãos, movendo-lhe os pés e respondendo ao seu chamado de amor e de compaixão. Olhar, sentir e fazer é a missão do Pai dada a Jesus e a missão de Jesus dada a cada um de nós.
Senhor, ensina-me o teu olhar, o teu sentir, o teu fazer. Que tenha compaixão daqueles que mais necessitam de mim. Concede-me a graça de reconhecer a minha identidade respeitando as diferenças que junto a mim caminham. Faça-me compreender que uma vida sem missão é inútil e sem sentido. Que eu entenda que o culto mais agradável a Deus é o cuidado comigo mesmo e com o próximo e que por meio desse culto é que posso encontrar o sentido da minha existência.




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