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A abertura de fronteiras

  • Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
    Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
  • 25 de set. de 2021
  • 3 min de leitura

Os discípulos mostram-se surpresos, escandalizados e irritados. Descobrem um perigoso rival e estão preocupados porque algumas pessoas são capazes de expulsar demônios e realizar outras maravilhas com o nome de Jesus. Entretanto, não são seguidores legítimos do projeto de Jesus. Eles haviam acabado de escutar palavras sobre a acolhida e, no entanto, realizam gestos de exclusão e rejeição.


João, o discípulo mais jovem, é a voz ingênua da obsessão. Ele é a voz daqueles que reivindicam o direito de determinar quem pode pertencer ou ser excluído do grupo. Por causa da sua maturidade indefinida e da sua personalidade ambígua sente a necessidade de estabelecer limites claros, quer culpar aqueles que não pertencem ao grupo de Jesus: “é impossível que alguém que não tenha feito a experiência com Jesus, percorrido o caminho de fé e de crescimento com Ele, seja capaz de realizar prodígios em nome dele”.

Contudo, João não reclama com o Mestre dizendo “não é teu discípulo”, mas “não nos segue”, “não é um de nós”. O interesse de João é reinvidicar a exclusividade dos discípulos.

O centro da preocupação dos discípulos não está no seguimento a Jesus, mas no seguimento deles mesmos. Com isso, revelam a convicção arraigada de que são as únicas e indiscutíveis autoridades. O instinto de defender o que é nosso pode assumir formas irracionais através do nascimento de instituições fechadas, de agressão primitiva levando-nos a usar meios violentos para afirmar o domínio sobre um território, uma relação ou uma pessoa. De fato, muitos são os conflitos que nascem da obsessão pela clareza dos limites.


O princípio sugerido por Jesus é claro: quem age a favor do bem dos homens é um de nós. O Espírito não é monopólio de uma pequena comunidade de seguidores ou da estrutura de um pequeno grupo. A resposta de Jesus é um convite a não temer a abertura das fronteiras: “Quem não é contra nós é a nosso favor”. A resposta ajuda a ver mais longe e a curar a miopia dos próprios interesses. Com efeito, toda rigidez vinda de pessoa ou de instituição é patológica. É isso que Jesus tenta fazer com que seus discípulos entendam. Eles necessitam deixar um olhar fechado e invejoso para alcançar o olhar capaz da gratuidade, da liberdade e do amor.


Jesus rompe toda tentação medíocre e separatista dos seus seguidores. Ele não chamou um grupo de discípulos a fim de serem controladores da graça e da salvação. O critério de Jesus é inclusivo e de liberdade plena. Não há necessidade de se defender porque o bem pode vir de quem é diferente de nós.

Todo o bem tem sempre uma única fonte, um valor absoluto. Essa é a condição do verdadeiro discipulado. Neste sentido, Deus se faz presente onde se pratica qualquer forma de bem.

É um fato constante encontrar discípulos que ao invés de acolher, de escancarar as portas do coração, de se alegrar por quem se aproxima do Senhor tornam-se polêmicos, divididos, ressentidos e fingidos devotamente. Jesus não veio para erguer muros, construir alfândegas, proibir o anúncio do seu nome e emitir regras objetivadas. É aqui que está a causa do escândalo, sublinhada no Evangelho.

No significado originário da palavra escândalo podemos melhor entender o contexto usado por Jesus. Escandalizar é criar obstáculos. Todas as vezes que através dos mínimos gestos criamos obstáculos devemos nos atentar. Por isso, Jesus usa as mãos, os pés e os olhos. Os sentidos que expressam gestos de acolhida, de encontro e de relação.

É preciso verificação interior. Para os discípulos de Jesus, caminhar atrás do Mestre é um processo de transformação e de crescimento nunca findado, uma oportunidade permanente de conversão, cuidando dos "pequenos" e acolhendo o "diferente". Com efeito, Jesus convida a sondar o que não ajuda a crescer e a cortar o que cria escândalo. É preciso romper com o que impede de testemunhar a libertação do Evangelho. A imagem do cortar remete a poda da árvore, muito usada noutros contextos. A poda torna a árvore mais fecunda, embora possa parecer a princípio uma violência exercida sobre a planta. “Cortar” não são orientações desumanas para serem aplicadas literalmente, mas indicações realistas de um caminho a ser feito todos os dias a fim de purificar o coração e viver o Evangelho com maior liberdade. A nossa responsabilidade é lutar todos os dias contra nós mesmos e não contra inimigos externos.


Senhor, tantas vezes pensei possuir a única verdade e vivenciei a rigidez patológica. A minha ingenuidade imatura e infantil autorizou-me a excluir, a rejeitar e a discriminar. Ajuda-me a entender os teus projetos inclusivos e acolhedores. Ensina-me não possuir desejos discriminatórios e excludentes e a não ser causa de escândalo ao criar obstáculos. Liberta-me do controle obsessivo presente nos pequenos e fechados grupos.


LFCM.


1 comentário


Marcia Severo
Marcia Severo
26 de set. de 2021

Olá Frei qto ainda tenho q aprender com a Palavra do Senhor. Você me ajuda muito. Obrigada , q o Senhor lhe abençoe muito. Paz e Bem.

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