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Francisco e a conversão do modo de ser humano

Foto do escritor: Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.
há 3 horas
3 min de leitura

No ano de 1226, ao aproximar-se da morte, Francisco pediu para ser colocado “nu sobre a terra nua”. Esse gesto, mais do que recordar a proximidade da morte, revelou o sentido de uma vida inteiramente entregue a Deus. Francisco chegou ao fim de sua peregrinação sem pretender reter coisa alguma para si, confiando-se plenamente ao Senhor da vida. Sua morte não foi apenas a conclusão de uma história, mas a revelação de uma existência configurada por Cristo, vivida com Cristo e sacramentalizada em Cristo.

A aproximação de Francisco com Cristo, sua leitura concreta do Evangelho e seu tocar o mistério permitiram-lhe compreender a vida de modo profundamente humano. Não foi o desejo de afastar-se do humano que o levou a viver dessa maneira. Pelo contrário: quanto mais Francisco se reconhecia humano, mais se aproximava do mistério de Deus. Em Francisco, a experiência do humano não se opunha à experiência de Deus; era precisamente o caminho pelo qual ele podia acolher e viver o mistério.

Foi na escola de Jesus que Francisco aprendeu a ser humano e a colocar-se diante de Deus, dos irmãos e de toda a criação. Sua escolha pela pobreza nasceu do desejo de se assemelhar ao Amado e tornou-se uma verdadeira gramática das relações: um modo de estar no mundo sem possuir, dominar ou aprisionar. Francisco compreendeu profundamente a necessidade de uma conversão dos vínculos e das relações. Em um tempo marcado pelas relações de poder, pela posse e pela hierarquia, ele inaugurou uma outra maneira de estar diante do outro: não a partir da dominação, mas da fraternidade. Sua experiência do Evangelho permitiu-lhe perceber que seguir Cristo exigia também transformar a maneira de se relacionar, reconhecendo no outro não alguém a ser possuído ou submetido, mas um irmão a ser acolhido, respeitado e amado, sobretudo, sendo este vulnerável e frágil.


Assim, o ideal de Francisco respeitava a liberdade, acolhia as diferenças e permitia que o amor se manifestasse sem dominação. As mãos de Francisco, marcadas pela experiência do Crucificado, expressaram essa liberdade de quem amava sem aprisionar. Eram mãos que acolhiam, partilhavam e serviam, mas que também sabiam deixar partir. Não se tratava de viver na indiferença, mas de compreender que o amor verdadeiro não transformava o outro em objeto das próprias expectativas.

Francisco entendia que ser fraterno exigia proximidade, cuidado e compromisso, sem posse ou domínio. Nesse sentido, sua pobreza revelava sua profunda dimensão cristológica: aprender a amar como Cristo, que se entrega inteiramente e respeita a liberdade daqueles que encontra. Ser irmão significava reconhecer que a vida era dom, que o outro não lhe pertencia e que ele não era o centro de todas as coisas.

A vivência do ideal de Francisco também pode transformar nossa maneira de compreender as relações, habitar o tempo e formar o futuro. Francisco não viveu o presente como uma realidade vazia, dramática ou nebulosa, que precisava ser superada em busca de um futuro supostamente melhor. Ele nos ensina a reconhecer no hoje o lugar em que Deus se faz presente e oferece sua graça. O presente está grávido de futuro porque é habitado pela promessa de Deus.

Por isso, a vida franciscana é também expressão da esperança: liberta-nos da necessidade de acumular bens, garantias e até mesmo relações, permitindo-nos acolher a existência como dom. Em oposição à avidez de possuir e controlar, a esperança nos ensina a confiar e a reconhecer que nem tudo precisa estar sob nosso domínio para que a vida tenha sentido. Habitar o presente, assim, não significa simplesmente suportar o tempo, mas acolhê-lo como espaço no qual Deus continua a agir e no qual também somos chamados a formar o futuro.

A Páscoa de São Francisco, manifestada em sua passagem desta vida para o Pai, traz-nos um convite a viver e morrer na liberdade dos filhos de Deus. Sua experiência pascal nos interpela a nos apresentarmos diante do Senhor sem máscaras, sem falsas seguranças e sem a pretensão de sermos senhores da própria existência. Francisco nos ensina que a verdadeira liberdade não consiste em possuir mais, mas em amar sem aprisionar, acolher sem dominar e confiar sem exigir garantias.


Sua vida e sua morte testemunham que, quando nos deixamos conduzir por Deus, podemos viver a fraternidade como dom e a esperança como horizonte de toda a existência. Assim, seu Trânsito não nos deixa apenas a memória de uma morte santa, mas ensina ao nosso tempo como estar diante de Deus sem pretender consumi-lo, como estar ao lado do irmão sem possuí-lo, como habitar o presente sem dramatizá-lo e como reconhecer, em todas as coisas, os vestígios de uma Presença sublime.

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