Ascensão da Humanidade, Expansão do Amor
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- há 5 dias
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Atualizado: há 22 horas
A experiência dos discípulos com o Ressuscitado foi marcada por encontros simples, permeados pela fragilidade, pelo medo e pela dúvida. Embora a Ressurreição fosse um acontecimento grandioso, os discípulos ainda carregavam o peso da traição, da negação e do fracasso. Aos poucos, Jesus os conduziu para além dos cenáculos fechados e dos limites de uma comunidade amedrontada.
Os quarenta dias entre a Ressurreição e a Ascensão foram um tempo de amadurecimento espiritual e de compreensão da missão. Nesse caminho, os discípulos aprenderam a reconhecer o Ressuscitado presente em todos os lugares. Assim, a Páscoa transformou o desespero em esperança e preparou os discípulos para o envio missionário.
No Evangelho de Mateus, a aparição do Ressuscitado acontece na Galileia, lugar carregado de profundo significado teológico. A chamada “Galileia dos gentios” era considerada uma terra impura e marginalizada, habitada por povos excluídos da prática religiosa judaica. Foi justamente nesse espaço periférico que Jesus iniciou sua missão e anunciou a Boa-Nova do Reino. Ao retornar à Galileia, Cristo mostra que a evangelização nasce nas periferias humanas e existenciais.
O monte onde acontece o envio dos discípulos recorda os grandes momentos de ensinamento e revelação vividos com Jesus. Dali, os discípulos recebem a missão de continuar a presença do Amor do Mestre no mundo.
O relato da Ascensão em Mateus não enfatiza uma separação física de Jesus, mas a promessa de sua permanência contínua e da expansão do amor. Mais do que subir aos céus, Cristo garante que estará presente todos os dias junto de sua comunidade. A Ascensão revela uma nova forma de presença, ampliada pela ação do Espírito Santo. O Espírito não substitui Jesus, mas prolonga sua missão e torna sua presença universal. Dessa maneira, Cristo já não está limitado ao tempo ou ao espaço, mas permanece agindo em toda a história humana. A Ascensão, portanto, não representa ausência, mas uma presença ainda mais profunda e abrangente. Ela inaugura um novo tempo para a missão da Igreja e para o espaço celeste.
A nova missão confiada aos discípulos não consistia apenas em transmitir doutrinas, mas em formar novos discípulos para viverem o projeto do Reino. Jesus sabia das limitações de seus seguidores, mas prometeu-lhes o auxílio constante do Espírito Santo. O Espírito seria a força dos frágeis, a luz dos que duvidam e a memória viva da presença de Cristo. Assim, os discípulos compreenderam que não seriam protagonistas autossuficientes da missão.
Suas capacidades humanas eram importantes, mas insuficientes sem a presença divina. É o Espírito quem dá eficácia à ação evangelizadora e sustenta a caminhada da Igreja ao longo da história. A missão nasce da confiança em Deus e não apenas nos próprios recursos.
Na Ascensão do Senhor, não é apenas a missão da Igreja que se transforma, mas também o próprio céu que acolhe a humanidade assumida por Cristo. O corpo glorificado de Cristo coloca definitivamente a carne humana junto de Deus. Ao subir ao Pai, Jesus leva consigo toda a nossa humanidade, elevando-a à dignidade da vida divina. A carne antes marcada pela fragilidade, pelo sofrimento e pela morte agora participa da glória eterna.
Em Cristo, o céu acolhe aquilo que é humano e revela o verdadeiro destino da criação. A Ascensão mostra que Deus não rejeita a humanidade, mas a assume plenamente em seu amor. O Ressuscitado sobe não para afastar-se do mundo, mas para abrir à humanidade o caminho da comunhão eterna com o Pai.
Aquele que caminhou entre os homens continua próximo, conduzindo a humanidade à plenitude da vida eterna. Por isso, os cristãos não são chamados a permanecer olhando para o céu, mas a recordar os passos de Jesus na terra. As contradições dos primeiros discípulos continuam presentes na vida dos fiéis de hoje. Também nós nos prostramos diante da presença de Deus, mesmo carregando dúvidas e inseguranças. A verdadeira fé consiste justamente em permanecer caminhando com Cristo, permitindo que Ele transforme nossas fragilidades em testemunho de esperança.
Senhor, na tua Ascensão elevaste minha humanidade à glória do Pai. Faz-me caminhar neste mundo com o coração voltado para o céu, sem perder a esperança diante das minhas fragilidades. Fortalece minha fé, sustenta minha missão e ensina-me a reconhecer tua presença todos os dias. Amém.




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