A conversão do coração
- Frei Luis Felipe C. Marques, ofmconv.

- há 1 dia
- 3 min de leitura
No ato da criação, antes de formar o homem, Deus preparou-lhe um lugar de vida e de satisfação. Além de doar-lhe a existência, estabeleceu com ele uma profunda relação. No jardim do Éden, colocou as melhores coisas para que pudesse viver bem e responder aos dons recebidos. Entretanto, a serpente desviou o coração do homem para uma única árvore, afastando-o do coração divino e fazendo-o olhar para si mesmo. Tirou-lhe o foco do bem e da amizade com Deus. Dividir o coração é a dinâmica do tentador. Assim, o homem percebeu sua fragilidade diante da vida recebida, reconheceu seu limite e descobriu sua nudez.
Se o primeiro homem não conseguiu manter o coração ancorado em Deus, o Filho Primogênito assumiu a missão salvífica de restaurar essa relação com o Criador. Ele venceu o tentador, o pecado e a morte, para conceder-nos a autoridade de sermos vitoriosos e servir-nos como modelo.
O Filho amado não perdeu o foco da bondade generosa do Pai; não se deixou convencer por sugestões enganosas nem dividir o coração. Foi fiel até o fim ao bem começado, revelando que a firmeza interior nasce da confiança absoluta em Deus. Nele contemplamos a perfeita obediência que reconstrói aquilo que a desobediência havia ferido.
O diabo lançou a Jesus três propostas tentadoras: obedecer à fome, ter o mundo em suas mãos e colocar o próprio Deus à prova. Sugeriu que utilizasse suas prerrogativas divinas para benefício próprio e apresentou condições sedutoras: “se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”; “se te prostrares diante de mim, tudo isso será teu”; “se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo”. Era a tentativa de fazê-lo duvidar da imaginação salvífica do Pai por meio da avidez da posse, da glória humana e da instrumentalização de Deus.
Jesus, porém, não cedeu à tentação do poder nem ao delírio da onipotência. Recusou o caminho fácil do triunfo sem cruz. Sua identidade filial foi construída na forma como se relacionou com as tentações: com compromisso, palavra e decisão. Demonstrou que ser Filho é saber dizer não à fome desordenada, renunciar ao domínio do mundo e não submeter Deus a provas. Assim, escolheu permanecer na obediência amorosa, preferindo a fidelidade ao Pai à sedução do sucesso imediato.
Vivendo plenamente a sua humanidade, mostrou que a missão consiste em restabelecer uma relação firme e confiante com o Criador, por meio do amor e do encontro com o ser humano por Ele criado.
Por isso, a quaresma é um tempo necessário: ajuda-nos a retirar o coração do engano, a reencontrar a bondade generosa de Deus e a reconhecer a nossa humanidade. É um itinerário interior que nos educa na verdade do amor e na autenticidade da fé. A motivação quaresmal é essencialmente pascal: recorda que Cristo venceu a morte, destruiu o pecado e nos comunicou sua própria vida.
Sendo que a quaresma é um movimento do Espírito o fazer penitência não é uma mortificação, mas uma vivificação do Espírito e do seu santo modo de operar, que nos conduz ao deserto para silenciar, reencontrar o Pai, refazer o caminho da salvação e unificar o coração.
A experiência quaresmal nos resgata do coração dividido e revitaliza o nosso interior a fim de acolhermos a relação pascal da Nova Aliança. À luz da Páscoa compreendemos que a quaresma visa à conversão do coração, núcleo vital onde se entrelaçam pensamentos, afetos e relações. É nesse espaço interior que se decide a orientação da existência. Converter o coração é permitir que a graça alcance as raízes das motivações, cure feridas ocultas, nos liberte da divisão afetiva e reorganize toda a vida a partir do amor que desce do alto, restaurando a amizade com Deus e a história salvífica em nós. Assim, o caminho quaresmal torna-se preparação fecunda para acolher plenamente a vida nova da Aliança pascal, já revelada no ato da criação.
Senhor, converte o meu coração e unifica o meu interior. Livra-me de uma relação dispersa ou distraída. Ensina-me a renunciar à tentação do poder, a não me deixar levar pelo delírio da onipotência e pelo fascínio perverso de “tudo” controlar. Ajuda-me a acolher o dom pascal vendo tua bondade generosa em minha vida.




Comentários